domingo, 28 de novembro de 2010

The Hitcher (A Morte Pede Carona - 1986)

A primeira coisa que você precisa saber sobre The Hitcher é que o roteirista Eric Red criou a trama do filme inspirando-se na canção Riders On The Storm (a qual já comentei sobre neste blog). Ainda não é motivo suficiente para assisti-lo? Vamos então à sinopse:

O filme de 1986 dirigido por Robert Harmon nos apresenta o jovem Jim Halsey (C. Thomas Howell) atravessando os Estados Unidos pela Rota 66 para efetuar a entrega do carro que está dirigindo. Certa noite, próximo ao amanhecer, Halsey sente o peso do sono e, na esperança de manter-se acordado, decide dar carona a John Ryder (Rutger Hauer), um sujeito que se encontra à beira da estrada, sob uma forte tempestade. Logo, Ryder confessa ser um assassino frio e que Halsey será sua próxima vítima. Começa-se então um perturbador jogo de gato e rato que se conclui apenas ao final do filme.

Se a trama é bastante simples, o que tem de tão bom em The Hitcher? Para começar, esse é justamente um dos motivos que me fazem gostar deste filme. Aqui não temos explicações sobre a origem do assassino e os motivos que o levam a matar. Por exemplo, jamais descobrimos a razão de Ryder não matar Halsey nas várias oportunidades vistas ao longo do filme, muito menos o porquê de Halsey ter sido o “escolhido” para participar do jogo mortal de Ryder. Sabe-se apenas qual foi o propósito final do assassino. O foco aqui é o suspense e a ação.

Falando em suspense, Rutger Hauer encarna aqui um dos melhores vilões que já tive o prazer de assistir, transformando Ryder em um assassino sagaz, doentio e extremamente perigoso, e isso é algo para poucos. A atuação de Hauer é tão brilhante que me fez torcer por seu personagem. Em contrapartida, C. Thomas Howell encarna um jovem fraco e inseguro e é interessante acompanhar sua gradual transformação em um sujeito corajoso e vingativo. Já Jennifer Jason Leigh cumpre bem seu papel como Nash, uma garçonete que decide ajudar Halsey a fugir do assassino e até mesmo da polícia (culminando em uma fantástica perseguição envolvendo três viaturas, cujo desfecho é o melhor momento de The Hitcher).

O maior enigma do filme é a relação entre Halsey e Ryder. Alternando momentos de puro ódio e repulsa com ligeiros flertes (como na cena do interrogatório de Ryder), é impossível imaginar o que cada um deles realmente sente em relação ao outro, principalmente nos momentos finais da projeção. Não sei se a idéia foi proposital ou não, mas com certeza gerou discussões em mesas de bares na época do lançamento do filme.

Um dos grandes destaques de The Hitcher (além de Rutger Hauer, claro) é a Fotografia. O diretor Robert Harmon nos fornece enquadramentos de câmera fantásticos e que funcionam ainda melhor com a atmosfera criada pela iluminação, tanto nas cenas noturnas (como a primeira conversa entre os protagonistas) como nas diurnas (a já citada perseguição de carros). A trilha sonora (bem oitentista, por sinal) também contribui e muito, especialmente nos momentos de maior tensão.

Enfim, conclui-se que, mesmo não sendo uma obra-prima, The Hitcher é um grande filme de suspense que fará você refletir sobre fazer uma refeição em uma lanchonete de beira de estrada ou preferir passar fome até chegar à civilização.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Luke Strike: Cena X

Por falta de tempo para escrever para o blog, resolvi postar uma cena que escrevi para a aula de Oficina de Roteiro Audiovisual. Infelizmente não foi possível formatar aqui o roteiro exatamente como ele deve ser, mas a proposta permanece intacta.
CENA X – INT. NOITE (CASA)

Luke está em seu quarto. É noite e todas as luzes de sua casa estão apagadas, exceto a luminária que auxilia sua escrita sobre a escrivaninha cheia de objetos e materiais. O silêncio predomina em toda a casa. Ao olhar para a folha de papel em branco, Luke se dá conta de que não está em um bom momento de inspiração. Segurando a caneta com sua mão direita, passa a mão esquerda por seu rosto a fim de encontrar soluções para seu bloqueio criativo.

Luke larga a caneta, levanta-se, caminha lentamente em direção ao interruptor de luz, acendendo-a, e segue em direção à sua coleção de vinis. Dedilhando os álbuns, opta por The Lamb Lies Down On Broadway. Remove o segundo disco do álbum, pressiona o botão de energia de seu estéreo, levanta a tampa da vitrola, insere o disco e coloca a agulha sobre o mesmo. Quando Lilywhite Lilith se inicia, Luke volta para sua escrivaninha, senta-se na cadeira e pega sua caneta novamente.

Quando sentia que sua inspiração estava voltando, o braço direito de Luke contendo a caneta repousa sobre a folha de papel. Ao encostar sua caneta no papel para começar a escrever, ouve o barulho do som da campainha de sua casa. Faz cara de impaciência, larga novamente e caneta, levanta-se, sai do quarto e liga algumas luzes da casa que auxiliam sua direção à porta da frente.

Ao abrir a porta, Luke se surpreende ao ver Elektra.

LUKE
Elektra?
ELEKTRA
Oi, Luke.
LUKE
O que faz aqui?
ELEKTRA
Estou com muita dificuldade para fazer o texto que a professora Fletcher pediu. Sei que você gosta muito de escrever, então pensei se poderia me ajudar.
LUKE
Quando é o prazo para a entrega?
ELEKTRA
Segunda-feira.

Luke olha para o lado esquerdo e fica reflexivo por alguns segundos.

ELEKTRA
Por favor! Esta é a última chance que tenho para conseguir me livrar da disciplina dela!

Luke percebe que o desespero de Elektra é genuíno, abaixa a cabeça, olha para baixo, reflete por mais alguns segundos, respira fundo, ergue a cabeça e olha para ela.

LUKE
Tudo bem. Irei ajudá-la, mas no momento estou muito ocupado. Volte amanhã neste mesmo horário.

Elektra respira aliviada e abre um sorriso.

ELEKTRA
Muito obrigada, Luke. Você não faz idéia do quanto isto é importante para mim.
LUKE
Não há de quê.

Os dois se encaram por alguns segundos, sem dizer uma palavra.

ELEKTRA
Então é isso. Não irei mais incomodá-lo. Virei aqui amanhã como combinamos.
LUKE
Tudo bem. Boa noite.
ELEKTRA
Tchau.

Elektra dá meia-volta e começa a caminhar, enquanto Luke permanece na entrada de sua casa olhando para ela.

LUKE
Você...

Elektra então pára, dá outra meia-volta e olha para Luke.

LUKE
...gostaria de entrar por um momento?

Elektra abre um sorriso, ainda olhando para Luke.

ELEKTRA
Adoraria.

Luke então sorri discretamente, abre a porta da frente completamente, ainda olhando para Elektra, que começa a caminhar em direção à porta. Ao passar pela porta e ao lado de Luke, os dois trocam um intenso olhar. Luke continua a olhar para Elektra enquanto fecha a porta.

LUKE
Fique à vontade. Gostaria de beber alguma coisa?
ELEKTRA
Apenas um copo d’água, por favor.
LUKE
Já volto.

Luke então se dirige para a cozinha, enquanto Elektra se senta no sofá da sala e percebe a música vinda do quarto de Luke. Luke regressa com um copo d’água na mão direita e o entrega para Elektra, que sorri novamente.

ELEKTRA
Obrigada.

Luke senta-se no sofá de frente ao que Elektra se encontra. Debruça-se, entrelaça os dedos das mãos e fica olhando para um ponto do chão. Elektra, ao perceber seu nervosismo, tenta deixá-lo mais à vontade.

ELEKTRA
Não sabia que você gostava de Genesis. Costuma se inspirar na música para escrever?
LUKE
Quando minha inspiração não flui naturalmente, sim.
ELEKTRA
Costumo me inspirar em Bob Dylan para escrever.
LUKE
Por isso você tem dificuldade para tal.

Elektra sorri para Luke, que sorri para ela de volta. Ambos abaixam a cabeça enquanto riem.

ELEKTRA
Eu não acredito que estou aqui, em sua casa.
LUKE
Por que é tão difícil de acreditar?
ELEKTRA
Nos conhecemos desde o início do segundo grau e, exceto por algumas vezes em que trocamos olhares distantes ou dissemos “olá” um para o outro, nunca chegamos realmente a conversar.
LUKE
De fato.
ELEKTRA
Poderíamos ter nos tornado grandes amigos.
LUKE
É, poderíamos.
ELEKTRA
Estamos perto da formatura.
LUKE
Já decidiu o que fará do futuro?
ELEKTRA
Ainda não. Talvez estude para ser uma fotógrafa profissional.
LUKE
É uma bela profissão. Combina com você.

Elektra sorri timidamente e olha para o lado. Olha novamente para Luke.

ELEKTRA
E você? O que acha que a vida o reserva?
LUKE
Quero apenas escrever sobre o que gosto e apreciar o trabalho de outras pessoas.
ELEKTRA
E sobre o que está tentando escrever agora?
LUKE
O vazio que a solidão me traz.

Elektra adquire imediatamente uma expressão triste. Luke continua olhando para ela, mudo. Elektra coloca o copo já vazio sobre a mesinha em frente ao sofá.

ELEKTRA
É melhor eu ir agora.

Elektra se levanta do sofá. Luke levanta-se logo em seguida. Ambos caminham em direção à porta. Luke a abre lentamente para que Elektra possa sair.

ELEKTRA
Obrigada por ter me convidado a entrar.

Luke apenas afirma gesticulando a cabeça, olhando para Elektra.

ELEKTRA
Então, até amanhã.
LUKE
Até.

Elektra sai da casa. Luke fecha a porta e segue para a janela, se escondendo atrás da cortina minimamente aberta, observando Elektra ir embora. Elektra, ao dar alguns passos, se distanciando da casa, olha para trás, em direção à porta, ainda com uma expressão de tristeza. Luke segue olhando firmemente para ela. Elektra volta a olhar para frente e segue seu caminho. Luke dá um leve sorriso e fecha a cortina completamente.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

1000

Eu havia planejado muitos posts para o mês de Outubro. Tudo começou muito bem, mas infelizmente me senti desmotivado há algumas semanas e, agora que tudo voltou ao normal, estou escrevendo bastante. O único problema é que as coisas que ando escrevendo não são para o blog, pois se tratam de roteiros de filmes direcionados à faculdade. O tempo anda meio escasso e tenho (junto de meus colegas, é claro) dois grandes projetos para entregar até Dezembro, além de outro filme em estágio inicial de elaboração de roteiro que deve ser rodado e editado ainda nesta semana. Tudo isso dá um puta trabalho, mas não há nada como fazer o que a gente gosta.

De qualquer forma, Outubro de 2010 é o mês com o maior número de posts do blog (o que não é grande coisa, visto que outros blogs são atualizados quase todos os dias), ao menos por enquanto. Mesmo que eu contribua muito pouco e desapareça por um tempo – às vezes, semanas – as pessoas sempre voltam para checar se há novidades e, graças a isso, fico muito feliz de ver que meu blog atingiu a marca de 1000 visitas. No começo, eu não imaginava que isso aconteceria e comemorava cada centena. Nunca fui de fazer muita divulgação do blog (até mesmo a Aninha, minha ex-namorada, era mais disposta a isso do que eu). Eu achava que as pessoas que passavam por aqui logo iriam se cansar de ler as coisas muito longas e nada interessantes que escrevo e acabariam se esquecendo eventualmente. Mas, se continuo a escrever aqui, é porque sei que alguém se interessa, e esta é minha maior recompensa.

Portanto, gostaria de dedicar este post a todas as pessoas que visitam o blog e têm paciência para lê-lo, pois o mesmo provavelmente não estaria ativo até hoje se não fosse por elas. Agradeço especialmente àqueles que comentam aqui ou em outros meios, pois são estes comentários que me instigam a escrever cada vez melhor, como já afirmei em outra ocasião.

Muito obrigado mesmo!

PS: Assim que for possível, voltarei a atualizar o blog com mais freqüência.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Iniciou-se em um Sábado, Concluiu-se em um Sábado

Neste último Sábado eu finalmente descobri o que é a dor de verdade. Precisava sair. Não me sentia bem, e não queria ficar sozinho. Não queria ficar sozinho. Disseram-me: “Até que você está levando numa boa.”. Sou ótimo para disfarçar o que sinto. A verdade é que posso estar rindo por fora, mas agonizando por dentro. Não gosto de infectar ninguém com tristeza, a não ser que esta seja através da Arte. Caso contrário, prefiro ficar sozinho mesmo.

Sei exatamente onde errei. A culpa foi toda minha. Uma pergunta aperta meu coração e não sai de minha cabeça desde aquele momento decisivo, para o qual eu já estava preparado por saber que era apenas uma questão de tempo. Mas eu não sabia que doeria tanto. Ao fim da conversa, meus dedos tremeram e meus olhos se encheram de lágrimas, assim como agora. Mal pude falar sem tremer os lábios. Percebi que na vida não existem finais felizes como eu imaginava – ela apenas encontra novos caminhos, de um jeito ou de outro.

Agora sei como ela se sentiu. Apenas gostaria de poder beijá-la uma última vez.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

American History X (A Outra História Americana - 1998)

O racismo é uma das coisas mais estúpidas na história da humanidade. Apesar de todos os absurdos provocados por Adolf Hitler, ainda existem diversos otários espalhados pelo mundo que seguem seus ideais, inclusive nos países que lutaram contra o ditador durante a Segunda Guerra Mundial.

Esta é a base da trama de American History X (A Outra História Americana), dirigido por Tony Kaye e lançado em 1998. O filme narra a história de dois irmãos, Derek (Edward Norton) e Danny Vinyard (Edward Furlong) em sua inclusão ao neonazismo. Derek era um aluno excepcional na escola, mas a morte de seu pai o provocou uma ira que o deixou completamente cego perante seus atos. Ao conhecer Cameron Alexander (Stacy Keach), membro da supremacia branca, Derek se torna o líder de uma gangue de skinheads e eventualmente é preso pelo assassinato de dois negros. Durante os três anos que passou em confinamento, percebeu que sua ira e suas ações não o ajudaram a se sentir melhor e que nada realmente valeu à pena. Determinado a deixar o neonazismo e seguir com uma vida nova ao ser libertado, Derek vê seu irmão mais novo seguindo os mesmos passos que o levaram à prisão.

Danny também é um aluno exemplar da mesma escola em que Derek estudou. Porém, ao escrever sobre a autobiografia de Hitler, Mein Kampf, para seu professor de História, Murray (Elliott Gould), amigo e ex-namorado de Doris (Beverly D’Angelo), mãe de Derek e Danny, ele é encaminhado à sala do diretor (ironicamente, um negro) Dr. Robert Sweeney (Avery Brooks), antigo professor de Derek, o qual exige que Danny escreva um novo texto, desta vez baseado em Derek, intitulado “American History X”.

Uma das melhores qualidades do filme é a forma com que ele é contado. Seguindo uma narrativa não-linear, todos os acontecimentos anteriores ao dia em que Derek é libertado são mostrados em preto-e-branco, como a razão da influência de Derek ao racismo, sua ascensão como líder do D.O.C. (o grupo de skinheads), a discussão envolvendo Murray (um judeu) e ele durante uma refeição com toda a família, o assassinato dos negros e o tempo em que Derek passou na prisão. Porém, um destes flashbacks destaca-se ainda mais: a aposta feita entre os skinheads e os negros envolvendo a quadra de basquete e a subseqüente partida. A seqüência foi muito bem executada, pontuada pela emoção do jogo e a ótima trilha sonora de Anne Dudley, além de a película em preto-e-branco conferir à cena um tom mais artístico.

Outro ponto técnico interessante de American History X é o uso de closes nos rostos dos personagens enquanto estes dialogam, o que torna a narrativa muito mais intimista, facilitando a compreensão do caráter de cada um deles. Por exemplo, durante uma conversa entre Danny e Cameron, podemos notar no rosto deste último a convicção em todos os absurdos que verbaliza, além de sua expressão fria e sarcástica. Porém, de nada serviriam estes closes faciais caso os atores não fossem tão bons.

Furlong está sensacional como Danny. É uma pena que o ator se envolveu demais com drogas e teve seu trabalho relativamente reduzido na década seguinte, atuando em filmes precários e medíocres. Beverly D’Angelo (a Sheila Franklin de Hair) alterna os diversos estados emocionais e físicos de Doris com maestria, enquanto Avery Brooks transmite os conhecimentos de Sweeney de forma econômica, mas sem jamais soar capenga. Stacy Keach transforma Cameron no grande monstro do filme, ainda que seu tempo em tela seja razoavelmente curto. Fairuza Balk (Stacey, namorada de Derek), Ethan Suplee (Seth Ryan, o amigo skinhead gordo de Derek), Jennifer Lien (Davina, irmã de Danny e Derek), William Russ (Dennis, o pai dos irmãos Vinyard), Guy Torry (o negro Lamont, colega de trabalho de Derek na prisão e responsável por algumas das cenas mais divertidas do filme) e Elliott Gould reforçam o ótimo elenco.

E Edward Norton? Simplesmente fantástico. Não assisti a todos os filmes nos quais ele atuou, mas acredito que esta seja sua melhor performance. Norton é um ator que abraça fortemente todos os seus papéis e, aqui, confere a Derek um personagem brilhante e inteligente, ainda que humano e, conseqüentemente, sujeito a erros.

American History X ainda destaca-se da grande maioria dos filmes por não seguir certos padrões que acabam se transformando em clichês cinematográficos. Aqui não temos uma luta do bem contra o mal, pois tanto negros quanto skinheads são retratados como sujeitos perigosos de Venice Beach, bairro de Los Angeles onde a história se passa. Algo que me deixa particularmente muito feliz é a decisão do roteirista David McKenna de não ter transformado Derek em um cristão devoto ao se arrepender de seus pecados, o que é tão comum aos fracos tanto na vida real quanto na ficção. Felizmente, esta não é a natureza do protagonista.

“Então eu acho que é aqui que lhe digo o que aprendi – minha conclusão, certo? Bem, minha conclusão é: ódio é bagagem. A vida é muito curta para se estar irritado o tempo todo. Simplesmente não vale à pena. Derek diz que é sempre bom terminar um texto com uma citação. Ele diz que alguém mais já o fez melhor. Então, se você não pode superá-los, roube-os e termine em grande estilo. Então escolhi um cara que achei que você gostaria: ‘Nós não somos inimigos, e sim amigos. Não devemos ser inimigos. Embora a paixão possa ter se exaustado, ela não deve romper nossos laços de afeição. Os acordes místicos da memória se intensificarão quando tocados novamente, como certamente serão, pelos grandes anjos de nossa natureza.’” – Danny Vinyard

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Em Companhia Da Escuridão

Em se tratando de águas passadas
Quando a corrente foi rompida
E o corpo brutalmente corrompido
Esvaído em sangue e lágrimas
Pude perceber a expressão em seu rosto
A notável presença do medo se escancarava cada vez mais
Não fosse pela cor de sua pele, diria que você está pálida

Eu não sei onde estava durante todo este tempo
Em nosso último encontro, tudo estava bem
Não havia tristeza, tampouco raiva
Sua vida está ausente por completo
Mas você ainda se move

O que aconteceu com aquela pessoa que inspirava garra, força e coragem?

A mente é mais fraca que o corpo.

Andarilha, em busca de um mundo utópico
Perverso é o que irá encontrar
Ardendo em chamas e desmoronando por fora
Nem as cinzas remanescem por muito tempo
Logo não haverá para onde correr, pois o chão está cedendo

Sim, o mundo é cruel
Mas não seja cruel consigo mesma

Destemido, o medo antecede a coragem
O vazio toma conta do espaço preenchido
A luz do dia é envolta em escuridão
E as estrelas brilham apenas por obrigação

A corrente se rompeu, mas você continua presa
Seu corpo se curou, mas continua ferido
Você ainda se move, mas sua vida está ausente por completo
Não fosse pela cor de sua pele, diria que você está pálida.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Hair (1979)

Na época em que morei em Goiânia pela primeira vez, em meados de 1995, costumava gravar muitos filmes que passavam na televisão. Meu pai fazia diversas viagens para Manaus a trabalho e sempre me trazia caixas com fitas VHS novas. Ele nunca se preocupava em gravar filmes. Porém, certa vez, acordei de manhã e percebi que ele havia pegado uma destas fitas para realizar uma gravação. Quando fui perguntá-lo o que havia sido gravado, ele simplesmente encheu a boca e os olhos e disse: Hair! Um dos melhores filmes da história!”, ou algo assim. Ele explicou que o filme havia passado no Intercine, começando à uma da madrugada e terminando um pouco depois das três. Ele não me convidou a vê-lo na hora porque eu acordava muito cedo para ir para a escola.

Imaginei que o filme deveria ser uma coisa de outro mundo, já que meu pai jamais gravaria qualquer coisa por conta própria. Fiquei naturalmente curioso, algo bastante comum para uma criança de 9 anos de idade sedenta por aprender mais sobre a arte do Cinema e da Música. Ao assistir ao filme, estava ciente de que havia presenciado algo espetacular. Os personagens, a música, os cenários, a época e a cultura dela tornam Hair um dos melhores filmes a que já tive o prazer de assistir. Após reproduções constantes, a fita foi finalmente tragada pelo videocassete e isto fez com que eu passasse bons anos sem contato algum com o filme.

Até que, morando em Boston em 2006, eu estava em uma loja de CDs e DVDs sem saber o que comprar e, de repente, foi como se uma cópia do filme pulasse em minha mão e dissesse: “Buy me! Buy me!”. Como eu poderia recusar? Então fui para casa rever o filme após quase uma década e me surpreendi quando percebi que havia passado a sessão inteira com um sorriso contínuo em meu rosto. Sorriso este que refletia a saudade de Hair sendo morta durante quase duas horas de projeção.

Hair é um filme de 1979 dirigido por Milos Forman, vencedor do Oscar de Melhor Diretor por seu filme anterior, o excelente One Flew Over The Cuckoo’s Nest (Um Estranho No Ninho – 1975). O filme foi inspirado no musical homônimo de 1968 da Broadway, mas exceto pelo título, nomes de personagens e algumas canções, pouco têm em comum. James Rado e Gerome Ragni, escritores do musical, afirmam que a versão cinematográfica do mesmo ainda não foi produzida, deixando claro que não gostaram do filme em questão. Mas o que realmente importa é que Hair, o filme, consegue se manter sozinho por seu próprio mérito e deleite audiovisual.

Na trama, que se passa em 1968, somos apresentados a Claude Bukowski (John Savage), um ingênuo jovem fazendeiro do interior de Oklahoma que viaja para New York para se alistar no exército. Era o auge da Guerra do Vietnam e do movimento hippie que lutava contra a mesma. Ao passear pelo Central Park, Claude conhece um grupo de hippies liderado pelo carismático George Berger (Treat Williams, em um papel inesquecível). Juntos, mostram a Claude as coisas belas da vida (leia-se haxixe e LSD) que ele não teve a oportunidade de conhecer em sua cidadezinha em Oklahoma e tentam convencê-lo das barbaridades da Guerra do Vietnam. Ao mesmo tempo, Claude se apaixona por uma garota da alta sociedade, Sheila Franklin (Beverly D’Angelo), que, mesmo sabendo do interesse amoroso deste por ela, não hesita em flertar com Berger (Ah, as mulheres!). Enfim, Claude acaba se alistando no exército após um problema de comunicação entre Berger e ele, indo parar em uma base de treinamento militar em Nevada. Sheila, após receber uma carta de Claude, mostra-a a Berger, que decide fazer uma viagem, junto a ela e seu grupo, através do país para visitar o amigo.

A sinopse do filme o dá a impressão de ser bastante ordinário, não fosse pelas seqüências musicais e seus fortes personagens que, além de Claude, Berger e Sheila, constam Woof Daschund (Don Dacus, guitarrista e vocalista da banda Chicago), LaFayette “Hud” Johnson (Dorsey Wright), a noiva de Hud (Cheryl Barnes) e Jeannie Ryan (Annie Golden), garota adorável que está grávida, mas não sabe se o pai do bebê é Woof ou Hud. Temos, naturalmente, outros personagens de menor destaque, mas de igual importância para o andamento da projeção.

Porém, quem rouba todas as cenas nas quais aparece é Berger. O sujeito de 23 anos demonstra uma liderança natural para com seu grupo e não mede esforços para que todos estejam bem, como fica provado na excelente seqüência em que todos os demais (inclusive Claude) encontram-se presos enquanto Berger sai às ruas em busca de dinheiro para pagar suas fianças. Da mesma forma com que preza pelos amigos, tem amor pela vida e pelo estilo com que a leva. Não se importa nem um pouco com as obrigações que a sociedade lhe impõe e simplesmente faz as coisas que tem vontade, quando tem vontade, sem prejudicar a ninguém (de certa forma). Seu grande destaque na tela é a cena na qual protagoniza uma dança sobre uma longa mesa ao ir a uma festa que não foi convidado (a canção em questão é I Got Life).

As seqüências musicais e suas coreografias são de embasbacar. Até hoje, quando assisto à fantástica seqüência no Central Park ao som de Aquarius, sinto arrepios e percebo um grande sorriso em meu rosto (como quando assisti ao filme novamente em 2006). Acredito que grande parte do impacto que esta cena me causa é justamente a força da canção em questão, que virou um grande sucesso em 1969 quando foi lançada em single. Temos cenas/canções engraçadas como Sodomy (Woof recitando palavras safadas para duas mulheres enquanto andam a cavalo), Hair (a famosa canção-título executada na prisão) e Black Boys/White Boys (alternada entre mulheres no Central Park e militares responsáveis pela avaliação física dos alistados, resultando no momento mais hilário do filme).

Porém, à medida que o filme se desenvolve, as cenas/canções mais alegres dão lugar às mais tristes, e este é um dos méritos do filme. Os trinta minutos finais contrastam imensamente com a mesma duração inicial e é interessante poder acompanhar todas as suas transições. Temos canções mais densas como a bela Walking In Space (My Body) (que traz arrepios em minha espinha toda vez que a garota vietnamita aparece cantando, mesmo que a voz da canção não seja realmente dela), Easy To Be Hard (quando a noiva de Hud o encontra e este a hostiliza, numa belíssima cena mostrando para quê servem os amigos) e a fantástica The Flesh Failures/Let The Sunshine In, o clímax/desfecho da narrativa (que não comentarei para não estragar a surpresa de quem não assistiu ao filme, mas tem vontade).

Todas as vezes nas quais assisto Hair, sinto a nostalgia que nunca tive. Ao testemunhar como era a sociedade no final dos anos 60, a cultura americana (e também européia), o Rock N’ Roll atingindo seu auge, o movimento hippie pregando paz e amor acima de tudo, entre outras coisas, faz-me querer cada vez mais ter vivido aquela época, mesmo com todas as dificuldades que ela também apresentava. Atualmente, vivemos em um mundo aonde as pessoas não interagem mais entre si e não se preocupam umas com as outras. São tão fúteis e conformistas que se contentam com o nível mais baixo de conhecimento cultural (ao menos, os brasileiros) e acham que a Política algum dia irá consertar o mundo. Os jovens estão cada vez mais estúpidos e unidimensionais. Não existe mais a vontade de se causar uma revolução através da inteligência e do inconformismo, muito menos o tesão pela vida. Tudo isso me convence de que nasci na época errada, onde quase tudo é ruim demais, sugerindo que a humanidade vai gradualmente caminhando em direção ao fim.

“Quando a lua estiver na Sétima Casa e Júpiter se alinhar com Marte, então a paz irá guiar os planetas e o amor dirigirá as estrelas.”Aquarius

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

The Gold Rush (Em Busca Do Ouro - 1925)

“Durante a Grande Busca do Ouro no Alaska, milhares de homens vieram de todas as partes do mundo. Muitos não estavam cientes das dificuldades perante a eles, o frio intenso, a falta de comida – e uma jornada através de regiões de gelo e neve era um problema que os aguardava.”

Assim iniciava-se The Gold Rush (Em Busca Do Ouro), filme de 1925 do mestre Charlie Chaplin. A trama se passa no ano de 1898 e traz o personagem mais icônico de Chaplin, o famoso Vagabundo, retratado aqui como “um prospector solitário”, vagando pelas montanhas geladas do Alaska. Quando uma forte nevasca é iniciada, o Vagabundo e Big Jim, outro prospector que acabara de encontrar uma mina de ouro, se vêem obrigados a buscar refúgio na velha cabana de Black Larsen, procurado pela polícia. A nevasca se estende por dias e os três homens se encontram totalmente famintos e decidem tirar na sorte quem irá partir em busca de comida. O próprio Larsen é “sorteado” e parte para a jornada.

A partir deste momento, as inúmeras cenas clássicas de The Gold Rush perduram até sua conclusão, começando pelo momento no qual Big Jim e o Vagabundo jantam uma das botas cozidas deste último, passando pela hilária cena mostrando Big Jim, alucinado pela fome, imaginando o Vagabundo como um grande frango (aliás, até o desempenho de Chaplin como um frango é digno de aplausos). E tudo o que foi citado até agora é apenas referente à meia-hora inicial do filme.

Outros personagens relevantes são: Hank Curtis – um homem que ajuda o Vagabundo quando este finge desmaio para conseguir uma refeição e o deixa encarregado de sua cabana enquanto parte em uma jornada com seu parceiro –, Jack Cameron, o antipático garanhão pegador de mulheres e Georgia, interesse romântico do Vagabundo.

Aliás, não posso deixar de comentar sobre a personagem Georgia. Freqüentadora assídua de um cabaré e constantemente assediada por Cameron, a moça usa o Vagabundo (que acaba se apaixonando) para poder se livrar momentaneamente do garanhão. Acontece que, durante o filme, temos claras demonstrações de que ela realmente tem uma queda por Cameron e julga que a melhor forma de demonstrá-lo é fazer cu-doce até que este perca a paciência. Em certo momento, Georgia responde positivamente quando Cameron a pergunta se ela o ama, apenas para se sentir mal quando percebe que fez uma brincadeira de mau gosto com o Vagabundo, culminando em mais cu-doce. Inclusive, este é um raro momento da projeção no qual Georgia demonstra algum afeto pelo Vagabundo, já que em grande parte do tempo ela apenas o provoca e, quando ele sai de cena, é zombado por ela e suas amigas. Mesmo tendo ficado profundamente triste (a expressão de Chaplin ao abrir a porta da cabana e perceber que não há absolutamente nada lá fora é tocante), o Vagabundo não pensa duas vezes quando o fazem crer que Georgia se arrependeu da “brincadeira” e vai correndo atrás da vagaba, num claro exemplo de quão malditas são as mulheres, que possuem o dom de transformar homens em simples capachos.

E já que falei sobre Georgia, não posso deixar de comentar sobre Big Jim, personagem fundamental da história que, a princípio, pode ser encarado como um sujeito antipático e egoísta. Porém, no decorrer da narrativa, percebe-se gradualmente que ele é um homem do bem (apesar de tentar matar o “frango” em prol de seu estômago) e, ao lado do Vagabundo, protagoniza as melhores cenas de The Gold Rush.

Tracemos, então, um breve perfil do Vagabundo. O protagonista de 90% dos trabalhos de Charlie Chaplin é um andarilho que sobrevive graças a sua esperteza, bajula outras pessoas para seu próprio bem e é apaixonado pelas mulheres. Não ouvimos a sua voz, mas ele fala com os outros personagens. Medroso em muitos casos, mas fica irado quando o bicho pega pro lado de quem ele ama (quem já assistiu The KidO Garoto –, sabe do que estou falando). Apesar de simplório, é um grande cavalheiro que sabe valorizar as pequenas coisas da vida e as pessoas que ela nos traz. Tem problemas com a Lei o tempo todo, mas nunca é realmente culpado. Mais atrapalhado e divertido, impossível. Enfim, são tantas as características do Vagabundo que eu poderia consumir uma página inteira falando sobre elas, mas me limito a citar apenas algumas de minhas preferidas.

Falar da parte técnica de qualquer filme de Chaplin é desnecessário. Afinal, um gênio que escreve, produz e dirige seus próprios filmes (além de atuar e compor a trilha sonora) há de fazer um trabalho realmente impecável. Chaplin estava em um grande momento de sua carreira e isto se reflete em outras grandes cenas como a da famosa “dança dos pães” e da cabana equilibrando-se na beira de um penhasco. Minha única reclamação é justamente o desfecho da história, que acontece de maneira óbvia e muito conveniente, mas nada que tire o mérito alcançado em The Gold Rush, uma clara demonstração de talento do maior mestre da história do Cinema mundial e um prenúncio do que seriam suas obras-primas definitivas.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

3:30 a.m.

Poema escrito em meados de 2000. O manuscrito foi encontrado somente agora, após tanto tempo.

Se você soubesse como me sinto agora
Não teria feito isso antes
Tudo terminou em um hospital
Às três e meia da manhã
Não faz mais sentido algum
A vida não vale mais nada
Quero me afundar no mar
Com você tentando me salvar
Um traficante ontem me disse
Que o pó tava barato
E que uma garota tinha comprado
Cem gramas do bem malhado
E eu não liguei, não pensei em você
Eu achei que era outra pessoa
Mas não queria correr o risco
Fui correndo para sua casa
Cheguei lá, mas ninguém estava
Pensei bem: “Onde ela está?”
Mas não adianta, não vou achar
Não resta mais aonde procurar
Em minha casa, o telefone tocou
Minha garota perguntou: “Por onde andou?”
“Estava te procurando, mas não te achei
Então fui para casa e descansei.”

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Maior Tesouro do Mundo

Hoje é aniversário de uma das poucas pessoas que, hoje sei, farão parte da minha vida para sempre. Quanto a algumas outras, não sei bem ao certo. Na verdade, nem me preocupo, apenas deixo rolar. Ou melhor, arrastar.

A aniversariante da vez é a minha linda filhota Vicky. Já se fazem 5 anos desde o inesquecível dia em que ela nasceu e no qual tive o prazer de acompanhar tudo de perto. A chegada dela foi a coisa mais linda que já vi e realmente não sei como tem gente que passa mal em tal situação. Guardo aquele dia como um dos melhores momentos pelos quais já passei e, embora ainda não tenha passado tanto tempo com ela quanto gostaria, sei que teremos grandes momentos juntos no futuro, não importa em quais circunstâncias.

Minha linda, parabéns pelo seu dia! Papai ama você!

Saudades...