sábado, 22 de janeiro de 2011

As Abóboras Smagadas: Parte III

Não me lembro mais qual foi o terceiro álbum dos Smashing Pumpkins que ouvi. Creio que comprei Siamese Dream e Machina no mesmo dia, na Galeria do Rock em Belo Horizonte. Assim sendo, comentarei primeiro sobre o qual menos gostei. Na verdade, não gostei quase nada.

MACHINA: THE MACHINES OF GOD (2000)

A sonoridade de Adore havia me agradado. Porém, ao saber que o álbum seguinte, Machina: The Machines Of God, era uma espécie de volta ao som pesado e recheado de guitarras de outrora, além de Jimmy Chamberlin ter reassumido as baquetas, fiquei bastante empolgado para ouvi-lo. A primeira faixa, The Everlasting Gaze, é uma porrada. O timbre das guitarras é gravíssimo e a empolgação chega aos píncaros. Praticamente não havia nada disso no álbum anterior. Excelente faixa de abertura. Logo em Raindrops + Sunshowers, os elementos eletrônicos ressurgem com força e as guitarras já não têm tanto destaque. A canção é um tanto repetitiva, mas não chega a ser ruim. Stand Inside Your Love é uma balada excelente e seu refrão é um dos meus preferidos até hoje. Mal sabia eu que as (duas) músicas ótimas do álbum já haviam tocado. I Of The Mourning é uma canção um pouco mais alegre. Não apresenta nada demais, mas empolga. A eletrônica The Sacred And Profane me trouxe desgosto imediatamente. Não me lembro de isto ter acontecido anteriormente, nem mesmo ao ouvir a seqüência final de baladas de Mellon Collie. Try, Try, Try melhora um pouco as coisas com seu ritmo mais cadenciado e tema mais esperançoso, mas nada que seja fantástico. As guitarras graves voltam com Heavy Metal Machine, mas não se engane. Não há nada de Heavy Metal nesta canção além de seu riff principal. O grande problema da mesma é que ela não empolga como deveria e não sai do lugar-comum, mesmo sendo uma das melhores de Machina (o que não é tarefa difícil).

This Time é mais uma das inúmeras canções comerciais do trabalho que, ironicamente, foram as responsáveis por salvá-lo. The Imploding Voice traz uma produção porca demais para o meu gosto. A bateria da canção soa horrível, assim como a excessiva distorção das guitarras. Se antes tínhamos várias camadas de guitarras, aqui temos várias camadas de distorção, estragando o belo som que uma dosagem certa poderia prover. É difícil de acreditar como a banda (ou Billy Corgan) tenha optado por produzir a canção desta forma. Glass And The Ghost Children é o épico de Machina. Com 10 minutos de duração, a canção começa muito bem e seu refrão é muito bom. Porém, uma passagem experimental no meio da música faz com que a mesma perca força. Felizmente, sua segunda metade, bem diferente, faz jus à primeira. Boa surpresa no álbum. Wound traz as músicas repetitivas de volta. The Crying Tree Of Mercury é a mais cansativa delas, além de trazer metais repetindo o mesmo trecho durante toda a sua execução. With Every Light é bobinha e em nada acrescenta. Blue Skies Bring Tears também não sai do lugar. A animada Age Of Innocence ao menos consegue encerrar Machina de forma heróica, lembrando um pouco as canções mais inspiradas da primeira metade do álbum.

Machina: The Machines Of God me decepcionou. Muito. Me pergunto o que houve com a inspiração de Billy Corgan neste disco. Provavelmente, o histórico da época o atrapalhou, já que a banda estava cada vez mais desunida e Machina foi, de fato, planejado para ser o álbum final dos Smashing Pumpkins. D’Arcy saiu da banda imediatamente após concluir as gravações de suas linhas de baixo.

SIAMESE DREAM (1993)

Se não tenho a certeza absoluta de ter comprado Siamese Dream e Machina juntos, me lembro exatamente de quando comprei o primeiro em questão. Era uma tarde ensolarada e minha mãe (que estava na cidade a passeio) e eu estávamos caminhando pelo centro e passamos pela Galeria do Rock. Naturalmente, comecei a procurar por CDs dos Smashing Pumpkins. Não demorou muito até me deparar com Siamese Dream, o segundo álbum da banda, e seu baixo preço. Não pensei quatro vezes antes de comprá-lo.

Dá para se imaginar o que aconteceu a seguir: cheguei eufórico em casa e me dirigi ao estéreo do meu quarto. Ao som da faixa inicial, Cherub Rock, quase tive um orgasmo sonoro! Era como se uma mulher maravilhosa estivesse sussurrando sacanagens em meu ouvido. Cherub Rock é uma linda canção pesada e cadenciada com seu ótimo refrão e letra mais do que down. O riff principal da mesma é algo que grudou em minha cabeça naquele exato momento. O solo idem. Talvez seja a minha canção preferida da banda. Acho que não preciso dizer mais nada sobre ela. Quiet mantém a porrada em andamento com suas guitarras maravilhosamente em sintonia e a pegada típica de Chamberlin. Mais um excelente solo é encontrado nesta. Enfim, eu estava começando a crer que Siamese Dream poderia ser tão bom quanto Mellon Collie. Minha crença aumentou ainda mais com Today e sua levada mais calma, embora com algumas passagens mais guitarrísticas e tensas. Bela música para se ouvir em um dia ensolarado e com um caminho a ser trilhado. Temos em Hummer um início um tanto estranho, com loops de efeitos criados, acredito eu, em guitarra. O peso não demora a surgir e logo percebemos que se trata de uma canção mais cuidadosamente construída e cheia de passagens belíssimas em seus 7 minutos de duração. Rocket é uma música mais comum do que as anteriores, mas ainda assim mantém a qualidade – e o peso – do álbum em constância. Disarm deixa as guitarras de lado e se envereda em um maravilhoso instrumental comandado por um violão simples e arranjos orquestrados por um violoncelo. O que posso afirmar relacionado ao seu refrão é que o mesmo é um dos mais belos dos quais estes ouvidos já tiveram o prazer de apreciar. Notas e palavras nunca soaram tão belas juntas. Soma foi uma música que me pegou de surpresa quando a ouvi pela primeira vez. Sua primeira metade trazia uma balada bastante calma, com as guitarras apenas dando o clima necessário. Quando menos eu esperava, a canção se transformou em peso, e não era pouco. Tive um choque, no bom sentido, e lembrei-me de algumas baladas de Mellon Collie ao ouvir esta parte de Soma. A mesma apresenta outro solo excelente.

Geek U.S.A. e seu som pesado marcado por riffs certeiros garante outra porrada de qualidade em Siamese Dream. Uma passagem mais calma durante a música abre caminho para um solo visceral e um peso ainda maior, culminando ainda em uma passagem totalmente Heavy Metal em seu ato final. Como contraste, o que se segue é uma magnífica balada – pesada, diga-se passagem. Mayonaise já começa linda com um diálogo entre guitarras antes que as mesmas se transformassem em armas sonoras carregadas de pura raiva e sofrimento. Corgan e Iha haviam escrito sua melhor composição conjunta. Não há como negar que os Smashing Pumpkins eram mestres em criar baladas carregadas de sentimento, tanto lírica quanto musicalmente, e Corgan as interpretava com realismo. Mayonaise é simplesmente maravilhosa, além de ser outra de minhas preferidas da banda. Spaceboy é mais uma balada que se segue, porém mais delicada e ao vilão (como Disarm). Outra ótima faixa. O único porém de Siamese Dream encontra-se na longa Silverfuck. A música começa muito bem e mantém uma boa empolgação durante seus três minutos iniciais. Após isso, o que se segue é uma passagem calma e cansativa que consome quase metade da faixa, que seria muito melhor se fosse mais curta e direta. Ainda assim, Silverfuck é uma boa canção e não se destoa do resto do trabalho. Sweet Sweet traz belos momentos sonoros em apenas pouco mais de um minuto e meio, abrindo caminho para a igualmente bela Luna, balada que encerra Siamese Dream calmamente, contrastando com o peso encontrado comumente durante quase todo o álbum.

No fim, concluí que estava certo: Siamese Dream era tão bom quanto Mellon Collie. Poucas foram as vezes nas quais eu havia ficado tão satisfeito em comprar um CD que não conhecia anteriormente.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

As Abóboras Smagadas: Parte II

Twilight To Starlight

Ao fim de Dawn To Dusk, me senti uma pessoa melhor do que eu era. Eu já havia caído nas graças dos Smashing Pumpkins. Sem perder tempo, parti para a audição da segunda metade de Mellon Collie And The Infinite Sadness, Twilight To Starlight. A canção de abertura deste segundo disco é Where Boys Fear To Tread, com seu início bem desenvolvido nas guitarras e seu andamento arrastado e pesado. Ótima escolha para prosseguir o trabalho duplo da banda. Após um desfecho abrupto, Where Boys Fear To Tread dá lugar à Bodies, bem mais rápida e, mais uma vez, apresentando distorção na voz de Corgan, porém mais discretamente. Uma das músicas mais empolgantes do trabalho. Outra das 28 canções do álbum que chamaram minha atenção imediatamente foi a linda Thirty-Three, com seu instrumental delicado e melodia vocal excelentemente construída. Graças a esta canção, passei a gostar muito mais de baladas, visto que na época eu era muito radical e estava descobrindo o Heavy Metal. In The Arms Of Sleep mantém o tom belo e delicado de Thirty-Three e, embora eu já tenha escrito sobre ela quando este blog ainda engatinhava, devo dizer que minha forma de pensar não mudou. Apenas ouço-a atualmente com outros ouvidos por ter marcado um pedaço de minha trajetória. A música mais famosa de Mellon Collie se segue. 1979, grande clássico da banda, inicia-se com elementos eletrônicos e, mesmo não apresentando peso, se mostra uma canção bem agitada e nostálgica. Lembro-me de tê-la ouvido deitado em minha cama, com a luz apagada, enquanto olhava reflexivo para o teto. Tales Of A Scorched Earth é a canção mais brutal do disco, com guitarras ainda mais pesadas, mas que perde força devido ao estilo vocal de Corgan, que se encontra excessivamente distorcido aqui. Ao menos o instrumental é bem trabalhado. Falando nisso, não há canção que resuma melhor a complexidade da obra do que Thru The Eyes Of Ruby, uma balada de mais de 7 minutos que carrega aproximadamente 70 camadas de guitarra, tornando-se um digno épico guitarrístico em plena década de 1990. Uma das canções mais ricas, embora injustiçadas, dos Smashing Pumpkins.

Após a rica e complexa Thru The Eyes Of Ruby, a simplicidade volta com Stumbleine, que apresenta apenas voz e violão. Um belo momento de paz em meio a tantas guitarras, que voltam com tudo em X.Y.U., a terceira e última composição de Mellon Collie a ultrapassar os 7 minutos de duração. X.Y.U. é agressiva e alterna entre momentos lentos e rápidos. Os vocais de Corgan aqui estão desesperados na medida certa, dependendo bem menos de apenas distorção. O que se segue pelo resto de Mellon Collie é uma sucessão de baladas, algumas inspiradas e outras nem tanto, a começar pela vampiresca We Only Come Out At Night, passando pela variada Beautiful, a feliz Lily (My One And Only) e a atmosférica By Starlight. Estas quatro canções formam o único momento fraco de Mellon Collie, o que é irrelevante se considerarmos a grande quantidade de números fantásticos encontrados aqui. Para encerrar o álbum duplo, os Smashing Pumpkins se despedem (literalmente) com a linda Farewell And Goodnight, canção de ninar cantada pelos quatro integrantes, outro momento único na discografia da banda. A canção, escrita por Corgan e Iha, se encerra com ligeiras variações da introdução Mellon Collie And The Infinite Sadness ao piano. Seria impossível um desfecho mais apropriado.

Mellon Collie And The Infinite Sadness é, portanto, o álbum que me fez ficar apaixonado pelo som dos Smashing Pumpkins. Após a audição completa do mesmo, fui dormir, pois acordava diariamente às 5 da manhã para ir para a escola, quase do outro lado da cidade. No dia seguinte, empolgado estava eu para conferir os trabalhos em Adore. Ao chegar em casa, sem perder tempo, me dirigi rapidamente ao estéreo.

ADORE (1998)

Adore começa imediatamente com uma das músicas mais lindas das quais já ouvi. To Sheila é uma balada semi-acústica com bateria eletrônica, bridge e refrão lindos. O calmo violão da canção dá destaque maior à voz de Corgan. Lembro-me que, ao fim da música, meu pai, que estava na sala e havia declarado no dia anterior não gostar da banda, gritou: “De novo! Gostei dessa.”. Não teria como reclamar. Outra música fantástica se seguia. Ava Adore é bastante eletrônica e, desta vez, com as guitarras apenas realçando o fantástico instrumental. Aqui percebi que este álbum seria diferente de Mellon Collie, já que Jimmy Chamberlin estava ausente da banda na época, o que fez com que a mesma voltasse às suas origens com uma bateria eletrônica, embora o som tenha ficado bem mais leve do que era em 1988. Perfect mantém o nível das canções anteriores com um ritmo mais empolgante e acessível, enquanto Daphne Descends apresenta um excelente trabalho sonoro ao som de baixo, bateria eletrônica e guitarras mais altas em algumas passagens. Um dos diversos destaques do álbum. Once Upon A Time chega a lembrar algumas músicas mais calmas de Mellon Collie, felizmente com a mesma qualidade. Algum tempo depois descobri que esta canção foi feita em homenagem à mãe de Billy Corgan. Tear dá uma esfriada no álbum, ainda que seja uma boa composição, mas muito aquém das anteriores. O ótimo nível de Adore volta rapidamente com Crestfallen e sua linda introdução, mostrando-se outra ótima balada dentre inúmeras no álbum. A música mais eletrônica do trabalho é Appels + Oranjes, que poderia ser uma das melhores caso não fosse tão homogênea do início ao fim.

As guitarras distorcidas, ainda que em menor escala, voltam a surgir em Pug, uma das canções que mais me agradaram de imediato aqui. Corgan faz excelente uso de efeitos eletrônicos ao longo da canção. The Tale Of Dusty And Pistol Pete é um pedaço de “alegria” flutuando em um mar depressivo, o que a faz se destacar das demais. Porém, um álbum como Adore não daria espaço a alegria por muito tempo. Segue-se, então, Annie-Dog e sua base simples formada por piano, baixo e bateria (de verdade) e o vocal sonolento de Corgan combinando perfeitamente com a atmosfera da canção. Ao fundo, pode-se perceber uma guitarra jazzística tão discreta que é perceptível apenas com o auxílio de fones de ouvido. Shame segue o álbum com a tradicional atmosfera down na qual Billy Corgan é mestre em criar e, mais uma vez, ele o faz com maestria. E o que dizer sobre as três últimas canções de Adore? Putz! A começar por Behold! The Night Mare. É curioso olhar para o passado e perceber que esta canção levou um tempo para se tornar uma de minhas preferidas da banda. As melodias vocais de seu início (e que se repetem na parte final) e do refrão são absurdamente lindas e o discreto ritmo que marca a música é fantástico. Behold! The Night Mare é, possivelmente, minha música preferida de Adore. For Martha possui um lindo trabalho de piano e algumas variações bem legais em seus mais de 8 minutos de duração. Esta foi a segunda composição de Corgan no álbum dedicada à sua mãe, Martha, falecida pouco antes do início das gravações de Adore. À medida que a música se desenvolve, as guitarras aparecem em grande destaque em sua segunda metade. A canção se encerra com belas camadas de guitarra sobrepostas, criando uma bela harmonia. Se eu havia duvidado que ainda houvesse espaço para um encerramento melhor do que For Martha poderia ser, Blank Page eliminou todas as interrogações. Nunca havia ouvido tanto sofrimento extraído de um piano como nesta canção. Aqui, o instrumento tem, junto à voz, destaque total, acompanhado por alguns efeitos sonoros e sintetizadores. Ao ouvir a introdução da mesma, senti minha solidão aumentar, e isto só piorou quando acompanhei a letra da canção no encarte do CD. Blank Page é o ápice melancolicamente belíssimo de Adore. A enigmática faixa final, 17, consiste apenas de um trecho gravado em piano elétrico (ou até mesmo de brinquedo) e dura, não coincidentemente, 17 segundos. Ao fazer uma pesquisa, descobri que 17 era, na verdade, uma canção que ficou de fora do álbum. Um trecho de sua letra pode ser encontrado na contracapa do encarte de Adore.

Cheguei à conclusão de que Adore, mesmo não tendo me agradado tanto quanto Mellon Collie, é um álbum muito bom. De fato, demorou um tempo para que eu realmente passasse a gostar muito dele. Entendi, então, porque minha tia havia recomendado que eu ouvisse Mellon Collie primeiro. Se minha iniciação aos Smashing Pumpkins ocorresse com Adore, talvez eu não tivesse tanto interesse posterior à banda. Mas, felizmente, eu já estava ciente do enorme potencial criativo de Billy Corgan.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

As Abóboras Smagadas: Parte I

Atendendo aos discretos pedidos, decidi dedicar alguns posts exclusivamente aos Smashing Pumpkins. A banda foi fundada no ano de 1988 em Chicago quando o guitarrista e vocalista Billy Corgan conheceu o guitarrista James Iha. Logo começaram a compor juntos com o auxílio de uma bateria eletrônica. D’Arcy Wretzky conheceu Corgan pouco tempo depois e juntou-se a eles como baixista. Após uma apresentação, foram convidados pelo dono da casa de shows Cabaret Metro para tocarem com a condição de substituírem a bateria eletrônica por um baterista de verdade. Por indicação de um amigo de Corgan, Jimmy Chamberlin, baterista de Jazz desempregado, foi recrutado, solidificando a mais famosa e estável formação da banda, ainda em 1988.

Os Smashing Pumpkins são famosos por sua discografia bastante variada. Seus primeiros álbuns eram calcados em Rock Alternativo com um peso maior que o habitual. Após 1997, a tendência se tornou mais eletrônica, mesmo não abandonando a temática lírica melancólica, uma das características mais marcantes de Billy Corgan na época. Ao se redirecionar ao Rock pesado após diversas críticas e fracassos comerciais, a criatividade da banda e o mercado fonográfico já não eram mais os mesmos, fazendo com que os Smashing Pumpkins encerrassem suas atividades ao final de 2000.

Desta vez, optei por não fazer uma matéria gigantesca sobre a discografia da banda, tendo em vista que os Smashing Pumpkins possuem cerca de 500 músicas (entre versões definitivas, alternativas e demos) em seu catálogo, sendo, provavelmente, a banda que mais produziu canções na história da Música mundial e, para ser sincero, creio conhecer apenas 30% delas. Meu maior conhecimento sobre o catálogo dos Smashing Pumpkins é justamente o foco nos álbuns de estúdio, os quais comentarei não em ordem cronológica de lançamento, e sim na ordem na qual eu os conheci.

MELLON COLLIE AND THE INFINITE SADNESS (1995) Dawn To Dusk

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que ouvi a banda. Um dia, quando morava em Belo Horizonte, fui visitar uns parentes. Uma de minhas tias possuía cópias de Mellon Collie And The Infinite Sadness e Adore. Perguntei-a se a banda era boa (uma amiga já a tinha me recomendado) e ela respondeu positivamente. Pedi a ela que me emprestasse os CDs para uma detalhada apreciação e ela concordou com a condição de que eu ouvisse Mellon Collie primeiro. Ao chegar em casa, meu pai estava em meu quarto usando o computador. Mostrei a ele os CDs e perguntei-lhe se conhecia a banda. Ele afirmou que sim, porém negou gostar da mesma. Isto não diminuiu minha empolgação e fui logo inserindo o disco Dawn To Dusk no estéreo.

Quando a introdução Mellon Collie And The Infinite Sadness começou a tocar, logo prendi minha atenção pela beleza, simplicidade e melancolia (fatores comuns em todos os trabalhos da banda) da faixa instrumental. Tonight, Tonight surgiu em cena com seus arranjos belíssimos de orquestra e, quando a voz de Billy Corgan apareceu, lembrei-me prontamente de Mick Jagger. Acompanhando a letra da canção pelo encarte do CD, me apaixonei pela mesma instantaneamente. Tonight, Tonight falava de esperança em uma época em que eu me sentia completamente sozinho e perdido em mim mesmo (sim, eu era um típico adolescente). O peso brutal das guitarras de Jellybelly me deixou embasbacado. Não fazia idéia até então de quão pesados os Smashing Pumpkins poderiam ser. Nesta canção pode-se perceber a grande quantidade de camadas de guitarra que a banda usava no estúdio em seus maiores momentos de distorção. Zero continua com o peso do álbum, embora em ritmo mais cadenciado se comparada à canção anterior. Ao ouvir Here Is No Why, me dei conta de que estava apreciando um som diferente, de uma banda ambiciosa e amplamente criativa. Isto só se reforçou ainda mais pela fantástica Bullet With Butterfly Wings, com seu refrão marcante e raivoso. Nunca havia sentido tanto prazer ao som de guitarras distorcidas. Esta canção foi a minha preferida do álbum durante um bom tempo e ainda a considero uma das mais marcantes da carreira dos Smashing Pumpkins. Para quebrar a seqüência indefectível de porradas sonoras, a balada To Forgive manteve o nível de qualidade nas alturas enquanto deu um descanso aos meus ouvidos extasiados.

Um dos meus títulos de canções preferidos é Fuck You (An Ode To No-One) e, neste caso, ele faz jus a ela. Fuck You já começa tensa e culmina bruta. Foi nesta faixa que reparei as grandes habilidades de Jimmy Chamberlin na bateria, com suas inúmeras viradas e energia intensa. Um excelente baterista. Love traz sonoridades eletrônicas, efeitos diferentes nas guitarras e distorção na voz de Corgan e é uma canção interessante justamente por ser diferente das demais. Outra que surge diferente é Cupid De Locke, guiada por dedilhados na harpa. Esta faixa é ótima para se ouvir fumando um cigarro e olhando para as estrelas no meio da madrugada. Galapogos é uma das melhores baladas do álbum, com pitadas de peso em sua segunda metade. Muzzle é outra canção que chamou minha atenção imediatamente na primeira vez em que ouvi Mellon Collie. O instrumental e as melodias vocais fizeram com que eu repetisse a música para acompanhá-la com sua letra depressiva sobre perdas e danos. Outra das melhores do álbum e, talvez, a que mais marcou o confuso momento no qual eu passei em Belo Horizonte. Porcelina Of The Vast Oceans é o maior épico do álbum com seus mais de 9 minutos de duração, embora a canção só comece realmente após os dois minutos iniciais, onde há apenas uma base crescente. O resto se divide em partes cadenciadas suaves com outras mais pesadas e rápidas. O disco Dawn To Dusk encerra-se com Take Me Down, uma balada bem calma e interessante composta e cantada por James Iha. Momento único em um álbum dos Smashing Pumpkins.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Por Vir

2011 chegou. O que vem pela frente? Sinceramente, não estou com medo do futuro. Não mais. Este ano será o melhor. Finalmente consegui um trabalho, após quase 6 meses de busca, e ainda assim terei tempo para fazer muitas outras coisas, realizar minhas grandes ambições.

É hora de me desligar de certas pessoas que eu acreditava serem boas para mim. Também não preciso mais sentir aquela raiva dos urubus que sobrevoam a carcaça.

Tive um fim de ano excelente em companhia de duas das pessoas mais importantes na minha vida. Uma semana inteira se passou tão rápido que só percebi quando elas partiram. Durante esse tempo senti uma paz enorme e estava bem comigo mesmo. Na verdade, ainda melhor.

Percebi que o sentimento ainda é forte. No fim das contas, o que eu considerava perdido talvez não esteja realmente. Tudo pode voltar ao normal com o tempo e a vontade mútua. Afinal, quando se tem duas partes, nunca depende apenas de uma, e é incrível como existem pessoas que não enxergam isso.

No momento estou trabalhando no roteiro da adaptação cinematográfica do poema Um Novo Amanhecer, o qual escrevi em Maio de 2010. Ainda não há previsão de quando será filmado. Espero muito que seja ainda este mês. Reuniões serão feitas para se discutir a prioridade do projeto, o primeiro de muitos outros que surgirão. Idéias não faltam.

Preciso voltar a escrever sobre Música. Há tempos não recorro a essa nostalgia tão boa. Alguém gostaria de me indicar alguma banda nos comentários para que eu possa escrever sobre ela (caso seja uma que eu admire bastante, claro)?

Um novo ano se iniciou. Façamos valer à pena. Atinja seus objetivos, mas sem ter que depender de alguém para isso ou prejudicar alguém no processo. Estupidez cansa e, agora, os tempos são outros.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Um Estranho

Olhando para o canto
Raciocinando sobre o passado
Expondo minhas memórias a um estranho
Que diz não saber o que é o sofrimento

De repente, ele chora
Debruça-se sobre seu colo
E diz ter perdido alguém

Ele não sabe o motivo, refuta sempre
Não sabe aonde errou e o que cometeu
Nem mesmo o que deixou de fazer
Mas afirma que se tornaria uma pessoa melhor
E faria o possível para reaver este alguém

Já não demonstra tanta tristeza em sua face
Ele agradece, levanta-se e segue seu caminho

Reflexivo e sozinho
Decidi que faria o mesmo por mim
Embora eu não demonstre
A dor que sinto quando penso em você.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Demência

Eu realmente iria desaparecer daqui pelo resto do ano, mas algo me chamou a atenção nos últimos dias que precisava ser abordado e, como é bem certo, escrever é um exercício para se exorcizar os demônios interiores.

O que leva uma pessoa a se apaixonar por outra sem nenhum grande motivo aparente e sair por aí dizendo para quem quiser ouvir que ama tal pessoa, sendo que esta literalmente não dá a mínima? Como pode um ser humano, além de infeliz, ser infeliz com o que tem e desejar mais o que é dos outros? E por que esta pessoa se porta bem com outras para tentar conseguir o que tanto almeja? E o pior de tudo, por que uma pessoa se diz amiga e trai a confiança alheia com a mesma facilidade em que rasga um pedaço de papel?

A resposta para todas estas perguntas não é apenas a falsidade. Seria muito simples. Tais pessoas são realmente dementes, loucas, insanas. E não me refiro ao tipo que se encontra em hospícios (os mais humanos e inteligentes), e sim às pessoas brochantes e estúpidas que se encontram por todos os outros lugares.

Uma pessoa que não se valoriza e não é amada o suficiente e coloca outra como sua prioridade de vida jamais terá capacidade para levar estes planos a cabo, ainda que esta seja sua grande vontade. Tentar preencher o vazio deixado por outra pessoa não adiantará. Você não conseguirá sequer encher um dedo do copo, pois você nada mais é do que um João-Ninguém.

O que dizer então de um João-Ninguém mais burro que uma porta – aquele que fala o que quer e escuta apenas o que quer, ou não escuta definitivamente nada? Alguém poderia me dizer qual o nível necessário de tolerância e paciência com alguém assim? Só conheço uma pessoa tão boa a ponto de suportar e conviver quase que diariamente com um ser com essas características.

Se você diz possuir amizade com duas pessoas que também são amigas entre si, não defeque em suas cabeças! Para que inventar histórias para tentar deixar alguém mais à vontade? E quanto a ocultar informações? Se não é capaz de ser sincera, fique em cima do muro, porra! Ao menos todo mundo ficará feliz por saber que você não fede e nem cheira.

Quando escrevi o post “Um Tributo À Mediocridade”, me referia justamente a alguém do tipo acima. São todos farinha do mesmo saco, literalmente falando. Não chega nem a ser uma metáfora. O lado bom da raiva é que, quando ela passa, eu me divirto. Muito. Apenas uma coisa é certa: demência pode ser contagiante, não importa o quão forte você aparente ser ou realmente é. Portanto, pule do barco e se salve enquanto é tempo, mesmo tendo que nadar contra a correnteza.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Apenas Um Outro Nômade: 1 ano de blog

Ontem, 16 de Dezembro de 2010, meu blog completou um ano de existência. Como o aniversário dele coincide com as comemorações de fim de ano, nada mais justo que olhar para trás e avaliar o ano que se passou.

2010 foi, provavelmente, o melhor ano que tive até hoje. Tantas pessoas fantásticas entraram em minha vida em tão pouco tempo que realmente não dá para falar de todas e como as conheci. O pessoal de Goiânia e a turma da faculdade em Brasília são exemplos de pessoas que quero guardar por muito tempo. Minha avó se casou novamente em Junho e foi ótimo reencontrar parentes em Belo Horizonte após tanto tempo.

O irônico é constatar que iniciei o ano de 2010 com o pé esquerdo, para depois perceber que coisas boas estavam começando a acontecer. Meu trabalho como professor havia melhorado e eu estava me divertindo bastante no primeiro semestre, o qual passei em Goiânia. Porém, surgiu a oportunidade de entrar na faculdade no segundo semestre em Brasília. Eu tinha certeza de que aquela seria uma última oportunidade durante um bom tempo e decidi que, desta vez, iria entrar de cabeça. Me surpreendi por perceber que só não fui um bom aluno nos tempos de escola porque eu era (e ainda sou) muito preguiçoso e realmente não queria saber de nada. Minha dedicação foi tão grande que fui convidado por alguns colegas a ser parte integrante de uma futura produtora de filmes independentes.

Porém, quando tudo anda muito bem é sinal de que algo ruim irá acontecer. O fim de algo que durou muito, muito tempo. Isso aconteceu e não me senti bem por uns dias, mas, na verdade, me recuperei rápido demais. Creio que o que aconteceu foi o melhor para todos e já não tenho mais vontade de voltar no tempo. Quero apenas viver minha vida e desejar que façam o mesmo. Minha mãe passou por algo semelhante ao mesmo tempo e nossa amizade nunca foi tão forte quanto é agora. Sem dúvida, ela se tornou minha maior companheira. Minha relação com minha linda filha também nunca esteve em tão boa sintonia.

Excetuando-se este e alguns outros equívocos da minha parte, nunca me senti tão bem comigo mesmo. Creio que precisava apenas de um rumo e, neste caso, foi a faculdade. Não poderia desejar uma turma melhor. Cada um ali tem seu próprio talento, intelecto e personalidade e, o que mais me agrada, um grande senso de união. É sempre divertido quando nos juntamos pra tocar um violão, jogar uma sinuca ou simplesmente conversar. Neste semestre estive envolvido em três filmes. O primeiro foi horrível, o segundo foi divertido e o terceiro foi uma animação em stop motion trabalhosa, mas que deixou todo mundo orgulhoso ao ver o produto final. O problema é que todos estes filmes foram trabalhos da faculdade, o que implica que tivemos muito pouco tempo e recursos para fazê-los. Porém, a tendência é só melhorar.

Este texto faz um belo contraste com o primeiro post deste blog“Obrigado”, uma expressão poderosa – no qual eu lamentava não ter aproveitado minha vida como deveria. Aprendi que tudo tem um momento certo para acontecer e já não me arrependo do tempo que joguei fora. Afinal, não adianta chorar pela Coca derramada. Então, o correto a se fazer é comprar outra e ser feliz.

Agradeço (novamente) a todos os que passam ou passaram por aqui no decorrer de 2010 e desejo-lhes ótimas comemorações de fim de ano. A gente se vê em 2011!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

01:02:03

Uma hora para sonhar
Sentir aquele momento inalcançável que se perde ao despertar
E o lamento de que aquilo jamais irá voltar
Com muito pesar

Dois minutos para refletir
Sobre a sensação de que o mundo irá ruir
Implodir conflitante e a vida se extinguir
Em um mar de almas, se subtrair

Três segundos para morrer
A tormenta se encarrega raivosamente de trazer
O corpo decomposto de seu ser
Para, em um novo útero, renascer

O que houve com a emoção?
Do que se fez a criação?
Por que não estamos em união?
Aonde foi parar minha inspiração?

domingo, 28 de novembro de 2010

The Hitcher (A Morte Pede Carona - 1986)

A primeira coisa que você precisa saber sobre The Hitcher é que o roteirista Eric Red criou a trama do filme inspirando-se na canção Riders On The Storm (a qual já comentei sobre neste blog). Ainda não é motivo suficiente para assisti-lo? Vamos então à sinopse:

O filme de 1986 dirigido por Robert Harmon nos apresenta o jovem Jim Halsey (C. Thomas Howell) atravessando os Estados Unidos pela Rota 66 para efetuar a entrega do carro que está dirigindo. Certa noite, próximo ao amanhecer, Halsey sente o peso do sono e, na esperança de manter-se acordado, decide dar carona a John Ryder (Rutger Hauer), um sujeito que se encontra à beira da estrada, sob uma forte tempestade. Logo, Ryder confessa ser um assassino frio e que Halsey será sua próxima vítima. Começa-se então um perturbador jogo de gato e rato que se conclui apenas ao final do filme.

Se a trama é bastante simples, o que tem de tão bom em The Hitcher? Para começar, esse é justamente um dos motivos que me fazem gostar deste filme. Aqui não temos explicações sobre a origem do assassino e os motivos que o levam a matar. Por exemplo, jamais descobrimos a razão de Ryder não matar Halsey nas várias oportunidades vistas ao longo do filme, muito menos o porquê de Halsey ter sido o “escolhido” para participar do jogo mortal de Ryder. Sabe-se apenas qual foi o propósito final do assassino. O foco aqui é o suspense e a ação.

Falando em suspense, Rutger Hauer encarna aqui um dos melhores vilões que já tive o prazer de assistir, transformando Ryder em um assassino sagaz, doentio e extremamente perigoso, e isso é algo para poucos. A atuação de Hauer é tão brilhante que me fez torcer por seu personagem. Em contrapartida, C. Thomas Howell encarna um jovem fraco e inseguro e é interessante acompanhar sua gradual transformação em um sujeito corajoso e vingativo. Já Jennifer Jason Leigh cumpre bem seu papel como Nash, uma garçonete que decide ajudar Halsey a fugir do assassino e até mesmo da polícia (culminando em uma fantástica perseguição envolvendo três viaturas, cujo desfecho é o melhor momento de The Hitcher).

O maior enigma do filme é a relação entre Halsey e Ryder. Alternando momentos de puro ódio e repulsa com ligeiros flertes (como na cena do interrogatório de Ryder), é impossível imaginar o que cada um deles realmente sente em relação ao outro, principalmente nos momentos finais da projeção. Não sei se a idéia foi proposital ou não, mas com certeza gerou discussões em mesas de bares na época do lançamento do filme.

Um dos grandes destaques de The Hitcher (além de Rutger Hauer, claro) é a Fotografia. O diretor Robert Harmon nos fornece enquadramentos de câmera fantásticos e que funcionam ainda melhor com a atmosfera criada pela iluminação, tanto nas cenas noturnas (como a primeira conversa entre os protagonistas) como nas diurnas (a já citada perseguição de carros). A trilha sonora (bem oitentista, por sinal) também contribui e muito, especialmente nos momentos de maior tensão.

Enfim, conclui-se que, mesmo não sendo uma obra-prima, The Hitcher é um grande filme de suspense que fará você refletir sobre fazer uma refeição em uma lanchonete de beira de estrada ou preferir passar fome até chegar à civilização.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Luke Strike: Cena X

Por falta de tempo para escrever para o blog, resolvi postar uma cena que escrevi para a aula de Oficina de Roteiro Audiovisual. Infelizmente não foi possível formatar aqui o roteiro exatamente como ele deve ser, mas a proposta permanece intacta.
CENA X – INT. NOITE (CASA)

Luke está em seu quarto. É noite e todas as luzes de sua casa estão apagadas, exceto a luminária que auxilia sua escrita sobre a escrivaninha cheia de objetos e materiais. O silêncio predomina em toda a casa. Ao olhar para a folha de papel em branco, Luke se dá conta de que não está em um bom momento de inspiração. Segurando a caneta com sua mão direita, passa a mão esquerda por seu rosto a fim de encontrar soluções para seu bloqueio criativo.

Luke larga a caneta, levanta-se, caminha lentamente em direção ao interruptor de luz, acendendo-a, e segue em direção à sua coleção de vinis. Dedilhando os álbuns, opta por The Lamb Lies Down On Broadway. Remove o segundo disco do álbum, pressiona o botão de energia de seu estéreo, levanta a tampa da vitrola, insere o disco e coloca a agulha sobre o mesmo. Quando Lilywhite Lilith se inicia, Luke volta para sua escrivaninha, senta-se na cadeira e pega sua caneta novamente.

Quando sentia que sua inspiração estava voltando, o braço direito de Luke contendo a caneta repousa sobre a folha de papel. Ao encostar sua caneta no papel para começar a escrever, ouve o barulho do som da campainha de sua casa. Faz cara de impaciência, larga novamente e caneta, levanta-se, sai do quarto e liga algumas luzes da casa que auxiliam sua direção à porta da frente.

Ao abrir a porta, Luke se surpreende ao ver Elektra.

LUKE
Elektra?
ELEKTRA
Oi, Luke.
LUKE
O que faz aqui?
ELEKTRA
Estou com muita dificuldade para fazer o texto que a professora Fletcher pediu. Sei que você gosta muito de escrever, então pensei se poderia me ajudar.
LUKE
Quando é o prazo para a entrega?
ELEKTRA
Segunda-feira.

Luke olha para o lado esquerdo e fica reflexivo por alguns segundos.

ELEKTRA
Por favor! Esta é a última chance que tenho para conseguir me livrar da disciplina dela!

Luke percebe que o desespero de Elektra é genuíno, abaixa a cabeça, olha para baixo, reflete por mais alguns segundos, respira fundo, ergue a cabeça e olha para ela.

LUKE
Tudo bem. Irei ajudá-la, mas no momento estou muito ocupado. Volte amanhã neste mesmo horário.

Elektra respira aliviada e abre um sorriso.

ELEKTRA
Muito obrigada, Luke. Você não faz idéia do quanto isto é importante para mim.
LUKE
Não há de quê.

Os dois se encaram por alguns segundos, sem dizer uma palavra.

ELEKTRA
Então é isso. Não irei mais incomodá-lo. Virei aqui amanhã como combinamos.
LUKE
Tudo bem. Boa noite.
ELEKTRA
Tchau.

Elektra dá meia-volta e começa a caminhar, enquanto Luke permanece na entrada de sua casa olhando para ela.

LUKE
Você...

Elektra então pára, dá outra meia-volta e olha para Luke.

LUKE
...gostaria de entrar por um momento?

Elektra abre um sorriso, ainda olhando para Luke.

ELEKTRA
Adoraria.

Luke então sorri discretamente, abre a porta da frente completamente, ainda olhando para Elektra, que começa a caminhar em direção à porta. Ao passar pela porta e ao lado de Luke, os dois trocam um intenso olhar. Luke continua a olhar para Elektra enquanto fecha a porta.

LUKE
Fique à vontade. Gostaria de beber alguma coisa?
ELEKTRA
Apenas um copo d’água, por favor.
LUKE
Já volto.

Luke então se dirige para a cozinha, enquanto Elektra se senta no sofá da sala e percebe a música vinda do quarto de Luke. Luke regressa com um copo d’água na mão direita e o entrega para Elektra, que sorri novamente.

ELEKTRA
Obrigada.

Luke senta-se no sofá de frente ao que Elektra se encontra. Debruça-se, entrelaça os dedos das mãos e fica olhando para um ponto do chão. Elektra, ao perceber seu nervosismo, tenta deixá-lo mais à vontade.

ELEKTRA
Não sabia que você gostava de Genesis. Costuma se inspirar na música para escrever?
LUKE
Quando minha inspiração não flui naturalmente, sim.
ELEKTRA
Costumo me inspirar em Bob Dylan para escrever.
LUKE
Por isso você tem dificuldade para tal.

Elektra sorri para Luke, que sorri para ela de volta. Ambos abaixam a cabeça enquanto riem.

ELEKTRA
Eu não acredito que estou aqui, em sua casa.
LUKE
Por que é tão difícil de acreditar?
ELEKTRA
Nos conhecemos desde o início do segundo grau e, exceto por algumas vezes em que trocamos olhares distantes ou dissemos “olá” um para o outro, nunca chegamos realmente a conversar.
LUKE
De fato.
ELEKTRA
Poderíamos ter nos tornado grandes amigos.
LUKE
É, poderíamos.
ELEKTRA
Estamos perto da formatura.
LUKE
Já decidiu o que fará do futuro?
ELEKTRA
Ainda não. Talvez estude para ser uma fotógrafa profissional.
LUKE
É uma bela profissão. Combina com você.

Elektra sorri timidamente e olha para o lado. Olha novamente para Luke.

ELEKTRA
E você? O que acha que a vida o reserva?
LUKE
Quero apenas escrever sobre o que gosto e apreciar o trabalho de outras pessoas.
ELEKTRA
E sobre o que está tentando escrever agora?
LUKE
O vazio que a solidão me traz.

Elektra adquire imediatamente uma expressão triste. Luke continua olhando para ela, mudo. Elektra coloca o copo já vazio sobre a mesinha em frente ao sofá.

ELEKTRA
É melhor eu ir agora.

Elektra se levanta do sofá. Luke levanta-se logo em seguida. Ambos caminham em direção à porta. Luke a abre lentamente para que Elektra possa sair.

ELEKTRA
Obrigada por ter me convidado a entrar.

Luke apenas afirma gesticulando a cabeça, olhando para Elektra.

ELEKTRA
Então, até amanhã.
LUKE
Até.

Elektra sai da casa. Luke fecha a porta e segue para a janela, se escondendo atrás da cortina minimamente aberta, observando Elektra ir embora. Elektra, ao dar alguns passos, se distanciando da casa, olha para trás, em direção à porta, ainda com uma expressão de tristeza. Luke segue olhando firmemente para ela. Elektra volta a olhar para frente e segue seu caminho. Luke dá um leve sorriso e fecha a cortina completamente.