quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

This is the End, Beautiful Friend

2012. Outro ano que se aproxima do fim. Mais uma vez, passo por aqui para ponderar os últimos 12 meses. Valeram à pena? Sim, na maioria dos casos. Foi, sem dúvida, o ano mais marcante desde 2003. Em outros, sinto como se tivesse desperdiçado tempo e oportunidades. Ao terminar a faculdade em Junho, decidi que passaria o semestre seguinte apenas trabalhando para poder descansar melhor. Resultado: além de não ter trabalhado o tanto quanto poderia, me senti entediado por não estar fazendo nada realmente produtivo. Estudar faz falta, mas a faculdade não, nem um pouco.

2012 foi o ano em que arrumei uma nova namorada, parei de fumar – engordando quase 20kg no processo –, terminei a faculdade, subi ao palco para cantar pela primeira vez em muito tempo, tive mais contato com minha filha e meus amigos em Montes Claros, comecei a me preocupar com a saúde, finalmente assisti a um show de um (ex)integrante do Supertramp, resolvi fazer uma viagem de verdade, reduzi um pouco o consumo de Coca (o refrigerante mesmo), deixei de morar com minha mãe, entre outras coisas que não consigo mais me lembrar, mas sei que estão por aí.

2012 foi também o ano em que fiquei desgostoso com algumas das coisas das quais eu mais adorava: a gestação e produção de filmes e a escrita. Em nível de comparação, este ano escrevi para este blog bem menos do que nos dois anteriores, e o fato de ele ter completado mais um ano de existência três dias atrás sequer foi celebrado, pois acho que Apenas Um Outro Nômade não tem mais razão de existir. De Janeiro para cá, talvez quatro ou cinco textos produzidos tenham sido bons – aquele sobre o SWU e o qual comento a apresentação de Roger Hodgson foram os últimos nos quais senti minha alma em suas palavras.

Apenas Um Outro Nômade se tornou algo tão pessoal que não me sinto mais à vontade em relatar às pessoas como me sinto. Não preciso mais disso, pois quem me conhece sabe o que se passa comigo, ou não. Afinal, não é tudo o que se torna público. Dizem que sou muito mais misterioso pessoalmente. Portanto, seguirei apenas desta forma. Este blog continuará online para que eu possa sempre revisitá-lo e me afogar em nostalgia onde quer que eu esteja, pois tenho imenso orgulho de muito material encontrado aqui.

Obrigado a todos aqueles que me acompanharam nesta jornada ao longo destes três últimos anos. Um grande abraço e um ótimo fim de mundo a todos.

Câmbio e desligo.

The Nomad

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Terceiro Ato

Novembro passou tão rapidamente que quase não me lembrei de atualizar o blog ao menos uma vez. Isto pode significar duas coisas: 1ª) nada de novo está acontecendo comigo ou 2ª) algumas coisas estão começando a tomar forma, mas posso estar sem motivação para escrever sobre o que quer que seja.

Tento me reciclar todos os anos, mas considero que neste, em específico, minha criatividade foi deixada de lado. Abandonada. Se há algum tempo tudo fluía com facilidade, agora é difícil buscar as palavras corretas (sim, eu já disse isso antes e digo de novo, novamente, mais uma vez). Acho que não tenho mais o que falar sobre mim mesmo, e também não quero mais fazer isso. Afinal, ninguém quer mais saber.

Estou correndo atrás de novos ares, pois sinto que já estou desgastado com minha rotina. Quero encerrar o ano com novas perspectivas e um estilo de vida renovado. Mas não quero fazer isso sozinho – quero a Kiss sempre ao meu lado. Ela sabe cuidar de mim (não é tarefa fácil). Sempre que possível, espero também contar com a Vicky, meu bem mais precioso.

Em Dezembro farei um apanhado de todo o ano, como já é de costume, e aproveitarei para encerrar as atividades de Apenas Um Outro Nômade. Afinal, este ciclo de minha vida está se fechando.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Comfortable Number

É engraçado
Eu estive triste por muito tempo
A busca foi intensa, em vão
Alguém seria encontrada em lugar nenhum
A esperança teria desaparecido
Eu me perdi

Mas então, de repente
Você entrou em cena
E me mostrou que eu poderia reaver aquela mágica perdida
Eu sorri mais uma vez

Você se permitiu ter sentimentos
Eu me permiti ser domado
E agora?

Tudo o que você faz deixa-me querendo-a mais e mais
Sou sua raposa, você é meu número
Minha melhor amiga
Apenas quero você
Quero mais daquele beijo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Setembro

Setembro é um mês significativo para mim. Coisas boas sempre acontecem nessa época do ano. Victoria completou 7 anos de idade no último dia 3. Embora eu não veja minha filha há alguns meses, penso nela constantemente. Sempre me sinto vulnerável ao falar com ela ao telefone, já que sua voz doce apenas faz minha saudade aumentar. O reconfortante é saber que ela continua saudável, linda e inteligente e que também sente minha falta. Em seu décimo aniversário, pretendo escrever uma crônica falando de seu nascimento e o quanto aquele acontecimento afetou minha vida e me fez abandonar a estagnação. Desejo à minha filha tudo o que um pai apaixonado poderia e faria por ela. Parabéns mais uma vez, minha pequena!

No dia 8, pude conferir duas grandes bandas nacionais no Festival Porão do Rock. A primeira delas foi o Sepultura, que, independente de sua formação, sempre executa um show exemplar e, desta vez, excetuando-se a abertura com três músicas do mais novo lançamento Kairos, limitou-se a tocar apenas canções dos clássicos álbuns Beneath The Remains, Arise e Chaos A.D. (com ênfase nestes dois últimos), encerrando, como de praxe, com Roots Bloody Roots, sempre o momento alto dos shows dos jungle boys. Porrada atrás de porrada. Este foi meu terceiro show do Sepultura em 26 anos de vida. Se pudesse, assistiria a pelo menos um por mês. Muito obrigado a Andreas, Derrick, Paulo e Eloy pela verdadeira “sessão descarrego”.

A segunda banda foi o Viper. Desde quando conheci seu som, por volta de 2003, tinha uma grande vontade de conferi-los ao vivo. Os dois primeiros discos – Soldiers Of Sunrise (1987) e Theatre Of Fate (1989) – contam com os vocais de André Matos, aquele mesmo que tem tesão por fundar bandas e abandoná-las no auge (Symfonia é a exceção). Aquele foi o terceiro Porão seguido em que pude conferir Matos ao vivo – em 2010 com sua banda solo e no ano seguinte com o já extinto Symfonia. Em 2012, o Viper anunciou um volta temporária aos palcos com seu vocalista original para celebrar os 25 anos do primeiro álbum. Foram meses de espera até que finalmente anunciaram um show em Brasília.

Matos veio acompanhado de Pit Passarel e Felipe Machado (baixo e guitarra, respectivamente) – os únicos integrantes que nunca deixaram a banda – além do baterista Guilherme Martin, que participou do Viper em diversas ocasiões no passado, e Hugo Mariutti, guitarrista da banda solo de Matos que substituiu Yves Passarel, irmão de Pit, atualmente no tosco Capital Inicial. Talento desperdiçado. A espera de anos para poder conferir o Viper ao vivo compensou, pois além de contar com a formação quase original, a banda executou os dois primeiros discos na íntegra, além de, para o bis, utilizarem algumas canções de Evolution (1992) – o terceiro, já com Pit nos vocais. Ele mesmo, inclusive, cantou a faixa-título deste. Não foi um show inesquecível, mas foi único para quem não viveu aquela época.

Logo após o festival, comecei a sentir uma “misteriosa” dor no pé direito. A princípio, pensei que ela iria desaparecer em alguns dias, mas foi apenas piorando. No dia 20, foi a vez do aniversário de 21 anos da Kiss. No dia anterior havia ocorrido um leve desentendimento entre nós. Eu estava chateado por ela estar triste. Nos encontramos, conversamos, nos entendemos, saímos com nossos amigos para tomar uma cerva e voltamos para casa para terminar a noite da forma como fazemos melhor. Estava tudo certo. Fiquei feliz por ter tido a oportunidade de passar seu aniversário com ela. Dois dias depois, resolvi ir ao hospital, pois meu pé estava começando a parecer uma bola de tão inchado. Depois do raio X, o médico decidiu que eu estava com uma contusão e deveria ficar de repouso por 15 dias. Caso contrário, só iria piorar. Portanto, cá estou eu, com um pé enfaixado e aprisionado em minha casa, derretendo dentro do quarto mesmo com a volta da chuva.

Mas, afinal, o que teve de bom nisso? Simples: ter uma mulher que me ama cuidando de mim durante todo o tempo possível não tem preço. Ela o faz com vontade, por querer, não por ter que fazer. Ela quer realmente estar ali ao meu lado, e isso é perceptível. Mal sabe cuidar de si mesma, mas quer cuidar de mim. Eu já havia caído nas graças dela há tanto tempo, mas quando ela se sentou para cantar Zombie (The Cranberries) para mim com aquela paixão, vontade e feeling, fiquei hipnotizado. Me apaixonei ainda mais. Kiss, você foi feita para mim, para ser minha parceira, minha grande amiga, minha companheira de jornadas pela vida e por este mundo não tão pequeno e – o mais importante – minha mulher, meu amor ardente e crocante. Permita-me zelar por você também, pois te ter em minha vida é como ganhar na loteria: uma sorte grande para poucos.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

I Hate No More: Parte V

Album Of The Year (1997)


O excelente King For A Day… Fool For A Lifetime não emplacou nas vendas tão bem quanto The Real Thing e Angel Dust. Trey Spruance, contratado para a composição e gravação do disco, não participou de sua subseqüente turnê, sendo substituído por Dean Menta, o técnico de teclado da banda na época. No ano seguinte, Jon Hudson se tornaria o mais novo guitarrista do Faith No More. Porém, àquela altura, a banda já se encontrava rachada, a convivência entre os integrantes já não estava mais tão bem. Apesar disso, seguiram em frente de forma profissional e lançaram Album Of The Year, novamente diferente do que a banda já havia feito – embora lembre em alguns momentos Angel Dust e King For A Day. Curiosamente, o nome do disco foi escolhido por ironia, já que, ao que parece, nem o próprio FNM ficou satisfeito com a direção musical tomada.

Album Of The Year começa muito bem com Collision, que alterna entre versos mais calmos e a raiva das guitarras e voz no refrão. Percebe-se imediatamente que, mesmo com a “volta” de Roddy Bottum, os teclados continuam econômicos – nada que possa lembrar a genialidade de outrora. Stripsearch é uma bem sacada mistura de música eletrônica, balada suave e Heavy Metal. Sem dúvidas, esta é a faixa mais climática de toda a carreira da banda. Levei muito tempo para digeri-la, e hoje a considero uma música muito boa, uma das melhores do álbum. Last Cup Of Sorrow é outro momento de destaque com efeitos na voz de Mike Patton, linha de teclado extremamente simples, mas memorável, e um baixo pulsante de Billy Gould. O refrão é sensacional. Três ótimas canções até aqui.

A coisa começa a desandar com Naked In Front Of The Computer que, musicalmente, parece uma Get Out bem mais modernizada e com vocais inferiores e irritantes, flertando novamente com o New Metal (estilo musical do qual o Faith No More ajudou a criar, influenciando inúmeras bandas do gênero). Felizmente, a bela balada semi-acústica Helpless retoma a qualidade das primeiras faixas. A essa altura, já é totalmente perceptível que Patton abusa dos efeitos em sua voz em Album Of The Year. Mouth To Mouth traz uma linha de teclado reminiscente da música circense sobreposta a uma estrutura basicamente Punk onde Patton declama os versos ao melhor estilo rapper. A seguir, temos um simples e certeiro riff de Hudson no arrebatador Hard Rock Ashes To Ashes, outro ponto alto nas apresentações da banda. Esta é facilmente a melhor canção – e último grande momento – de Album Of The Year.

She Loves Me Not é uma balada leve, bacana e despretensiosa com influências de Lounge Music e belos vocais. Got That Feeling segue com a mesma agressividade de Naked In Front Of The Computer e, apesar de levemente superior, não deixa de ser igualmente dispensável. Paths Of Glory é pesada, densa e cadenciada e segue uma mesma estrutura, não apresentando nenhuma novidade, mas conferindo uma interessante atmosfera dark que vai crescendo à medida que a canção avança. Home Sick Home, apesar de diferente em sua maior parte, é tão descartável quanto as outras duas mencionadas anteriormente – coincidência ou não, as três piores faixas do disco foram compostas unicamente por Mike Patton e cada uma delas possui em média dois minutos de duração. Pristina é uma faixa lenta e pesada que se limita à repetição exaustiva, não decolando nem mesmo em seu suposto clímax, concluindo – de forma pouco inspirada – Album Of The Year, que acabou se tornando o disco derradeiro do Faith No More.

Who Cares A Lot? (1998)


Who Cares A Lot? foi a primeira de várias coletâneas do Faith No More lançadas. Eu poderia ter escolhido qualquer outra para abordar aqui, mas esta é especial por ter sido lançada meses após o anúncio oficial do fim da banda, em Abril de 1998, tornando-se emblemática. Exceto pelo debut, todos os demais álbuns da banda – lançados pela Slash Records – estão representados aqui. Do Introduce Yourself, temos a releitura de We Care A Lot e a faixa-título (substituindo Anne’s Song). The Real Thing contribui com suas três primeiras faixas – From Out Of Nowhere, Epic e Falling To Pieces. Midlife Crisis, A Small Victory e Easy (em versão um pouco diferente da encontrada no álbum) representam o magnífico Angel Dust. King For A Day... Fool For A Lifetime aparece com Digging The Grave, The Gentle Art Of Making Enemies (substituindo Ricochet), Evidence e uma versão para I Started A Joke, dos Bee Gees, encontrada como bonus track em algumas edições do álbum, b-side de Digging The Grave e single final e póstumo, lançado com a coletânea. Para finalizar, temos Last Cup Of Sorrow, Ashes To Ashes e Stripsearch do Album Of The Year.

A novidade não se limita a I Started A Joke. Apesar de Who Cares A Lot? não incluir os singles Anne’s Song, Everything’s Ruined e Ricochet, o segundo CD da coletânea traz algumas raridades, como a apocalíptica e sombria The World Is Yours, gravada nas sessões de Angel Dust. Do que não entrou em King For A Day temos a divertida, leve e dançante Hippie Jam Song e o Heavy Metal com toques modernos de I Won’t Forget You. Instrumental foi gravada após as sessões do quinto álbum e apresenta a banda fazendo uma jam session experimental e interessante. Todas as guitarras da faixa foram gravadas por Roddy Bottum. Em seguida, temos uma porca versão demo em quatro canais de Introduce Yourself que, apesar de rara, em minha opinião empobrece o segundo CD, cujas demais faixas são muito bem produzidas. Para finalizar, temos três faixas ao vivo, sendo duas delas apenas trechos de músicas. O primeiro é de Highway Star, clássico do Deep Purple, enquanto o segundo é de Midnight Cowboy (rebatizada aqui Theme From Midnight Cowboy). O encerramento é a belíssima balada de Jazz This Guy’s In Love With You, gravada originalmente por Herb Alpert. O Faith No More, até onde se sabe, jamais gravou uma versão em estúdio desta canção.

Outras faixas mais raras da banda acabaram saindo em coletâneas posteriores, especialmente em The Very Best Definitive Ultimate Greatest Hits Collection (que também conta com um segundo CD de raridades), lançada em Junho de 2009, quatro meses após o FNM ter anunciado que retornaria aos palcos após onze anos com a mesma formação do Album Of The Year. Chuck Mosley se juntou à banda em um show em San Francisco em Abril de 2010 para cantar algumas canções. Patton se juntou a ele para fazer um dueto em Introduce Yourself. Em outra ocasião, Trey Spruance executou o álbum King For A Day na íntegra com a banda no festival Maquinaria, no Chile, em Novembro de 2011 – apenas dois dias antes da apresentação no SWU. De acordo com os próprios integrantes, sobretudo Mike Patton, definitivamente não há planos para um novo disco, o que é uma pena. Mas eles ainda estão por aí. Podem perfeitamente mudar de idéia algum dia. Eu só fico imaginando como teria sido o show final daquele maravilhoso último dia do SWU 2011 para mim caso eu já conhecesse e admirasse todas aquelas músicas da mesma forma que o faço hoje.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

I Hate No More: Parte IV

Angel Dust (1992)


The Real Thing, embora muito melhor que seus antecessores, ainda não apresentava o Faith No More como uma banda única. O álbum foi um sucesso com sua abordagem musical mais acessível, embora ainda carregasse bastante peso em diversos momentos. O mais comum seria seguir adiante com esta fórmula. Mas não foi o que aconteceu. Mike Patton havia se consagrado como frontman e participou ativamente das composições do trabalho seguinte (além de continuar provendo boa parte das letras), o que fez com que a direção musical do Faith No More mudasse bruscamente – para melhor. O resultando é Angel Dust, a obra-prima da banda. Foi neste álbum que atingiram um novo patamar de composição e musicalidade, tão difusas em diversos estilos. Em Angel Dust, Roddy Bottum contribuiu com suas melhores linhas de teclado e Patton pôde finalmente mostrar tudo o que sua voz é capaz de fazer – ouvindo o álbum inteiro, é difícil de acreditar que se trata de um mesmo homem.

Land Of Sunshine já deixa claro que o trabalho em questão é diferente de The Real Thing. Aquela banda dos anos 80 havia acabado. O Faith No More havia se tornado mais complexo, mais dark. O som é difícil de descrever, pois não se parece com mais nada do que escutei anteriormente. O baixo de Billy Gould continua “funkeado”, Mike Bordin segue extremamente eficaz na bateria e a guitarra de Jim Martin, embora ainda potente, parece ceder mais lugar aos teclados e eu diria até que esta decisão foi um acerto, pois tornou o som mais único e experimental. Caffeine traz um dos mais belos trabalhos vocais do disco, assim como um dos andamentos mais esquisitos – a canção passeia por momentos distintos que, juntos, formam um todo excelente, uma composição totalmente anticomercial, marcante e pesada, onde destaco um instante de crescente tensão pontuada pelo baixo lá pela metade, que culmina em uma explosão de guitarras e vocais gritantes e distorcidos.

Um dos momentos mais acessíveis de Angel Dust é o hit Midlife Crisis, com guitarras mais contidas e vocais mais limpos, que se sobrepõem ao fim criando uma interessante fusão. A música é o perfeito antônimo de Caffeine e possui um refrão marcante, especialmente ao vivo. RV é uma música... como posso definir? Ela fala sobre um redneck (um caipira americano) e tem pitadas de Country, mas seus acordes de piano me fazem lembrar das animações góticas de Tim Burton, como The Nightmare Before Christmas e Corpse Bride (lombra minha, eu sei). Esta é bizarra e divertida a ponto de me deixar ligeiramente embriagado. Porém, a canção que mais me deixa extasiado é Smaller And Smaller, belissimamente cadenciada, onde posso destacar o ótimo trabalho de Bordin na condução, mas não posso deixar de citar o riff de Martin e as vozes de Patton no refrão (que oscilam entre graves e gritos estridentes). E o canto aborígene no meio da canção? E o solo de guitarra após o mesmo? Sim, Smaller And Smaller é a melhor canção de Angel Dust – na verdade, uma das duas melhores.

Após uma breve e simples introdução de teclado, temos em Everything’s Ruined um momento de descanso de toda aquela experimentação sonora e podemos simplesmente conferir uma canção mais descompromissada, mas jamais inferior. Malpractice é a única composição do álbum creditada exclusivamente a Patton. Aqui temos o peso do Heavy Metal aliado aos teclados góticos e vocais desesperados, além de passagens díspares belamente unidas (como acontece em Caffeine e Smaller And Smaller). Kindergarten é outra canção das menos experimentais e igualmente fantásticas da obra, onde Patton recita seus versos como um rapper e fala a um rádio em velocidade impressionante em dois momentos distintos. O riff principal de baixo e o acompanhamento na guitarra pontuam de forma soberba a faixa. Be Aggressive é o momento mais bem-humorado de Angel Dust. Trata-se de uma composição de Roddy Bottum sobre sexo oral em homens, cujo divertido refrão é cantado por crianças! (É dito que Bottum, homossexual assumido, compôs a canção apenas para deixar Patton envergonhado ao cantá-la ao vivo. Dada a loucura do vocalista, creio que não deu certo.)

A Small Victory é mais uma canção desprovida de grande experimentalismo, sendo um dos grandes sucessos comerciais extraídos do álbum e que apresenta mais uma vez teclado e guitarra interagindo quase que sexualmente, tamanho o agrado que causam juntos. Crack Hitler é a única faixa de todo o trabalho que não me atrai tanto. Trata-se de um Funk um pouco repetitivo, porém longe de ser ruim e traz ainda bons momentos mais lentos e pesados. Então, finalmente, temos Jizzlobber, o épico apoteótico de Jim Martin, com seus mais de seis minutos de riffs sintomáticos, passagens tensas e vocais agressivos – tudo isso carregado de peso e dramaticidade. O desfecho da faixa é belíssimo ao som do teclado acompanhado de um coro de vozes em perfeita sintonia. Jizzlobber é a outra melhor composição de Angel Dust e encerra com maestria a participação do Heavy Metal no álbum – evidenciado também por Caffeine, Smaller And Smaller e Malpractice.

Ainda há espaço para duas releituras. A primeira delas é Midnight Cowboy, tema do homônimo clássico cinematográfico de 1969 (Perdidos Na Noite, no Brasil) estrelado por Jon Voight e Dustin Hoffman. Soberba versão, tão emocionante quanto a original. O mesmo pode ser dito da faixa seguinte, aquele cover dos Commodores que, em nosso país, se tornou a gravação mais conhecida do Faith No More. Easy foi incluída no Angel Dust posteriormente, não como bonus track, mas como parte do tracklist oficial da versão européia do álbum. A diferença mais gritante da releitura do FNM em relação à original dos Commodores é a ausência do segundo verso, deixando a canção mais curta, mas não menos perfeita para curtir uma fossa ou revisitar boas e velhas recordações. Jizzlobber seria uma conclusão perfeita para o álbum, mas Easy, por sua tamanha beleza, definitivamente não faz feio. A obra máxima do Faith No More estava, portanto, encerrada.

King For A Day... Fool For A Lifetime (1995)


Jim Martin, não satisfeito com a direção musical adotada em Angel Dust, abandonou o Faith No More ao final de 1993. Para auxiliar nas composições e gravar o álbum seguinte, Trey Spruance (colega de Mike Patton no Mr. Bungle) foi contratado em seu lugar no ano seguinte. Parecia tudo certo. Mas, nesta mesma época, duas tragédias ocorreram com Roddy Bottum: as mortes de seu pai e de Kurt Cobain – pois Courtney Love é sua grande amiga desde o início dos anos 80, quando tiveram um breve relacionamento, bem antes de Bottum se assumir gay. Portanto, o tecladista se ausentou quase que inteiramente do processo de composição e gravação de King For A Day... Fool For A Lifetime, um álbum que, justamente por isso, acabou saindo bem menos experimental, mais focado em guitarras (o que não deixa de ser irônico, dada a saída de Martin) e mais direto. Contudo, faz justiça a genialidade de seu antecessor com músicas de extremo bom gosto.

Se Land Of Sunshine, faixa de abertura de Angel Dust, era algo difícil de rotular, Get Out é um Punk direto, agressivo e pesado como o Heavy Metal que inicia King For A Day. Portanto, a diferença gritante já fica clara desde o início. Ricochet é uma excelente balada cortante e violenta sobre como é divertido magoar as pessoas até que alguém lhe faça o mesmo. Belíssimos versos, ponte e refrão cantados por Patton com uma voz mais econômica (presente em quase todas as músicas da bolacha). Evidence é uma mistura de Funk com Jazz bem balanceada e com um bom e leve trabalho de guitarra e teclado, sendo a primeira de algumas canções de King For A Day a destoarem do Punk/Metal predominante no álbum. Evidence se tornou um número curioso ao vivo, pois Patton adaptou a letra também para o Italiano, Espanhol e Português, cantando-a sempre no idioma mais adequado ao país onde a banda se apresenta.

O ritmo mais agressivo é retomado com The Gentle Art Of Making Enemies, que reúne momentos ao mesmo tempo suaves e tensos com a porrada que toma conta do refrão. A voz de Patton está inconstante, variando entre o calmo e o desesperado. Definitivamente é uma das melhores músicas do disco e um dos pontos altos dos shows. Star A.D. apresenta outro momento distinto no trabalho, um Jazz Fusion com direito a metais dando um clima totalmente retrô, um tanto fifties, onde o grande destaque é, outra vez mais, o baixo com grande carga funk de Billy Gould. Cuckoo For Caca é, ao lado de Surprise! You’re Dead!, a composição mais puramente Metal de toda a carreira do Faith No More. Esta, porém, traz teclados bem discretos em alguns momentos e um número maior de variações, além de um Patton novamente domado por sua esquizofrenia artística. Outro número indispensável de King For A Day.

Após toda a agressividade de Cuckoo For Caca, temos o momento mais bizarro do trabalho: uma Bossa Nova chamada – acreditem – Caralho Voador, cujo um dos versos é cantado em Português. O “caralho voador” do título refere-se ao carro utilizado pelo seu viajante. Apesar de a canção nunca decolar realmente, é um bom exemplo do humor e esquisitice afiados que se tornaram a marca registrada da banda após a entrada de Mike Patton. Ugly In The Morning apresenta guitarras pesadíssimas e o refrão tem um forte apelo New Metal (também encontrado em momentos de Angel Dust). O último minuto é totalmente dedicado ao surto desesperado de Patton ao implorar que não olhem para ele (o motivo é o título da canção) e a destreza da banda ao acompanhá-lo à medida que seu desespero se torna cada vez mais incontrolável.

Digging The Grave é um poderoso Punk com pitadas de Metal que fez com que eu me apaixonasse de vez pela simplicidade e peso de King For A Day tanto quanto o fiz pela complexidade e experimentação de Angel Dust. Em três minutos, a banda entrega uma energia incansável, um ritmo contagiante e uma porrada musical ensurdecedora e magnífica. São incontáveis as vezes nas quais coloquei esta canção no repeat e a deixei tocar por muitas e muitas vezes, seja em casa ou na rua, a pé ou no carro, sempre no último volume. Merece um parágrafo só para ela. A melhor de todas. Sem mais.

Outro contraste musical em meio a tanta distorção é a ótima balada Country Take This Bottle, um dos mais belos momentos da discografia do FNM. Aqui, Trey Spruance mostra – assim como em Evidence, Star A.D. e Caralho Voador – que captou perfeitamente a essência da banda, sendo capaz de criar e executar diversos estilos musicais dentro e fora do Rock/Metal com maestria, indo desde temas mais delicados e que exigem mais feeling aos mais pesados e agressivos. King For A Day é o álbum do Faith No More que possui o melhor trabalho de guitarras, especialmente levando-se em conta a escassez de teclados, presentes em um ou outro momento do trabalho. O que se segue é a faixa-título, com uma introdução mais leve, onde o violão substitui a guitarra – que não demora a aparecer. Esta é uma canção muito bem construída e que culmina em um ótimo clímax agressivo. O problema é que ele se encontra praticamente na metade da canção – a mais longa do disco, com seis minutos e meio –, fazendo com que o restante da mesma se limite a repetição de frases da letra em uma passagem mais calma. Logo, a música King For A Day, apesar de muito boa, peca pelo mesmo motivo de outra faixa-título: The Real Thing.

What A Day é mais uma ótima faixa Punk/Metal que soma ao álbum, enquanto The Last To Know é outra balada de peso igualmente excelente – ao estilo de Ricochet, porém mais arrastada e constante –, com um belo riff de guitarra entre versos e um belo vocal dramático. O clima de despedida é iminente. O encerramento épico fica por conta de Just A Man e sua levada leve e esperançosa (como o brilho do Sol citado na letra) que, no ato final, converte-se em um apanhado de emoções e um coro de vozes reminiscente do Gospel. Assim terminava King For A Day... Fool For A Lifetime, sem sombra de dúvidas o melhor disco do Faith No More depois de Angel Dust. Infelizmente, foi também o último grande álbum da banda, que começava a cair no esquecimento nos Estados Unidos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

I Hate No More: Parte III

The Real Thing (1989)


Mike Patton foi sugerido ao posto de novo vocalista do Faith No More através de Jim Martin, quem havia conferido uma demo do Mr. Bungle (grupo do qual Patton fazia parte na época), e juntou-se à banda no início de 1989. Em aproximadamente duas semanas, escreveu todas as letras do que viria a ser The Real Thing, o álbum que finalmente revelou o Faith No More ao mundo (foi este o primeiro recomendado por Bruno a mim). Aparentemente, o instrumental já estava todo pronto, já que Patton não chegou a contribuir nesta parte. Ao ouvir o álbum, é clara a impressão de alívio por parte da banda por terem se livrado do problemático Chuck Mosley, o que acabou libertando-os de possíveis limitações, resultando em um boom criativo incansável se comparado aos dois primeiros discos.

From Out Of Nowhere nos mostra logo de cara o que The Real Thing tem de melhor: um som energético, bem construído e acabado, com ótimo trabalho instrumental e vocal. Um grande início para a nova fase da banda. A música seguinte, Epic, se tornou o maior hit da história do FNM e é um Rap Metal contagiante com direito a um ótimo solo guitarrístico de Martin e refrão grudento que funciona ainda melhor ao vivo. O fim da música é belíssimo ao som do teclado de Roddy Bottum. Billy Gould anuncia Falling To Pieces com seu baixo marcante e logo percebemos que se trata de uma boa mistura de Hard Rock e Funk com um apelo mais comercial, somando mais um sucesso. Aqui já é possível notar que Patton usa e abusa de uma voz mais nasalada, presente em boa parte do álbum.

Surprise! You’re Dead! é o primeiro grande Heavy Metal do Faith No More. Carente de teclados, a faixa confere um peso mais brutal em relação às anteriores e faz em pouco mais de dois minutos o que os álbuns We Care A Lot e Introduce Yourself falharam tentando. Zombie Eaters é simplesmente a melhor música deste terceiro álbum. A princípio, trata-se de uma linda balada calma ao som de violão, voz suave e o velho teclado climático. Porém, aos exatos dois minutos, a distorção do baixo indica que a atmosfera da canção irá mudar e a mesma se transforma em outra porrada cadenciada e maravilhosa – similar ao que acontece em The Crab Song, do álbum anterior. (Por às vezes chamar a Kiss de “my little zombie”, gosto de dedicar esta música a ela.) The Real Thing, a faixa-título, é uma boa promessa, com ares progressivos em diferentes passagens interessantes, mas que peca pela repetição excessiva em seus oito minutos de duração. Ainda assim, pode ser considerada uma das melhores da bolacha.

Underwater Love e The Morning After retomam a sonoridade mais comercial e descompromissada do início do álbum e são ótimas composições que só não se destacam mais por estarem entre tantas outras melhores. Minha segunda faixa preferida aqui é Woodpecker From Mars, um dos melhores instrumentais dos quais já ouvi. Posso afirmar com toda a certeza de que Roddy Bottum, Jim Martin, Billy Gould e Mike Bordin apresentaram o ápice de seu entrosamento musical em uma composição cheia de passagens distintas e mudanças bruscas de andamento. Apesar da linha de teclado ser reminiscente de música oriental, Woodpecker From Mars é Metal em sua mais pura forma. Uma mini obra-prima.

War Pigs é um clássico absoluto do Black Sabbath que, na versão do Faith No More, ganhou maior peso, agressividade e energia. Basicamente, esta releitura é uma atualização condizente com o Heavy Metal praticado em meados do final dos anos 80. Embora eu ame o Black Sabbath, devo admitir que o update não deva nada à original. Edge Of The World é um excelente Jazz guiado pelo piano que empolga e encerra com estilo o primeiro álbum de real sucesso e qualidade do Faith No More.

Live At The Brixton Academy (1991)


Durante a turnê de divulgação de The Real Thing, um show foi gravado em Londres em 28 de Abril de 1990 e em Agosto daquele mesmo ano foi lançada uma versão editada da apresentação em VHS chamada You Fat Bastards: Live At The Brixton Academy. A versão em disco, Live At The Brixton Academy, saiu apenas em Fevereiro do ano seguinte. No show em questão, o Faith No More executou todas as canções de seu terceiro álbum e algumas poucas da época de Chuck Mosley. No entanto, no disco entraram apenas oito canções: Falling To Pieces, The Real Thing, Epic, War Pigs, From Out Of Nowhere, We Care A Lot (a única a não fazer parte de The Real Thing), Zombie Eaters e Edge Of The World. A versão em VHS conta ainda com Underwater Love, As The Worm Turns e Woodpecker From Mars.

Live At The Brixton Academy apresenta a energia ao vivo que se espera de uma banda como o Faith No More e de um frontman tresloucado como Mike Patton que, não raramente, brinca com a própria voz (por vezes estremecendo-a), culminando em um momento totalmente “What the fuck?!” ao cantar o refrão de Pump Up The Jam, hit mundialmente conhecido do Technotronic, ao final de Epic. War Pigs também não é poupada das bizarrices de Patton, que balbucia alguns trechos na parte final da canção. We Care A Lot nos dá uma amostra de como as canções da “Era Mosley” soam bem mais energéticas na voz de seu substituto – inclusive, todas as versões de Live At The Brixton Academy possuem um peso e velocidade mais elevados se comparadas às originais.

A edição em CD do disco ainda conta com duas faixas gravadas em estúdio, lançadas anteriormente como b-sides do single de From Out Of Nowhere. A primeira delas é The Grade, um bom Country instrumental executado ao violão. Nada demais. A outra, The Cowboy Song, nos faz questionar o motivo de a mesma não ter entrado no tracklist de The Real Thing, pois trata-se de uma excelente fusão Hard N’ Heavy que poderia perfeitamente figurar no lugar de Underwater Love ou The Morning After. The Cowboy Song encerra muito bem o único disco ao vivo do Faith No More e este, por sua vez, marca o fim de mais uma fase da banda, que ainda atingiria seu ápice musical.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

I Hate No More: Parte II

We Care A Lot (1985)


We Care A Lot, o debut do Faith No More, já se inicia com sua faixa-título. A canção mais conhecida da banda com Chuck Mosley nos vocais logo denuncia qual é o grande problema deste álbum (e de seu sucessor): os vocais de Chuck Mosley. O vocalista parece cantar em constante bocejo, sem qualquer vontade de tentar fazer bonito. O que se salva aqui são os competentíssimos instrumentistas e sua habilidade – ainda em desenvolvimento – em criar boas composições. We Care A Lot apresenta uma fusão interessante de Metal, Funk e o Pop inconfundível dos anos 80 (essa mistura seria utilizada pela banda durante todo o resto da década).

The Jungle apresenta um belo trabalho de guitarra e teclado, com os instrumentos se alternando em alguns momentos e criando uma forte parede sonora juntos em outros – o teclado de Roddy Bottum, inclusive, se manteria fundamental ao som da banda por muitos anos. Mark Bowen aponta outro problema recorrente na estréia do FNM, que é a repetição. Algumas canções desta época simplesmente não decolam, embora pudessem ser ótimas caso tivessem sido mais cuidadosamente trabalhadas. Jim é uma bela canção instrumental, bastante semelhante àquelas encontradas em caixinhas de música, muito bem executada ao violão por Jim Martin, quem deu nome à faixa.

Why Do You Bother começa com o baixo sempre funkeado de Billy Gould, criando uma ótima introdução para outra música que jamais abandona a base rítmica, apesar de conseguir criar um clima mais denso em seus momentos finais, com a desaceleração da bateria, culminando em um simples piano que se repete até que não possamos mais ouvi-lo. Greed não traz nenhuma novidade. Assim como algumas outras canções aqui, ela é descartável. Pills For Breakfast – outra faixa instrumental – é, justamente por não possuir vocais, uma das melhores do álbum. Ela mostra uma vertente um pouco mais pesada da banda (cortesia de Martin), com riffs simples e o interessante acompanhamento de um climático sintetizador.

Por falar em sintetizador, Bottum rouba As The Worm Turns para si com sua maravilhosa linha de teclado, tomando conta de quase toda a primeira metade da canção. É uma pena, porém, que o resto da mesma não tenha sido tão bem desenvolvido – em pouco mais de três minutos, ela acaba um tanto abruptamente, e poderia ter rendido uma excelente faixa mais longa e com mais variações. Ainda assim, é minha preferida deste álbum. Arabian Disco é puro Pop datado, ainda que levemente interessante, mas nada mais do que isso. New Beginnings é um bom encerramento para o primeiro registro oficial do Faith No More. Esta faixa apresenta um pouco do que faltou em boa parte do trabalho: maior variação de andamentos e melhor acabamento.

Introduce Yourself (1987)


We Care A Lot foi um começo bastante morno para uma banda que ficou mundialmente famosa pela sua capacidade de criar, inovar e ousar. Introduce Yourself, o segundo disco, segue a mesma linha musical de seu antecessor e está longe de ser uma obra-prima. Porém, aqui a banda apresenta uma considerável melhora em suas composições. Até mesmo a voz de Mosley está um pouco mais “tragável”. Slash Records, a nova gravadora, permitiu que a banda produzisse seu segundo esforço de estúdio com melhores condições, permitindo uma qualidade de gravação superior.
Faster Disco abre o álbum de forma boa, porém econômica. Apesar de ainda bastante perceptível, o Pop dos anos 80, tão gritante em We Care A Lot, está bem mais contido aqui, fazendo de Introduce Yourself um disco menos datado. O delicioso Funk de Anne’s Song traz outra ótima linha de baixo de Gould, sendo o grande destaque da faixa, juntamente a um solo de Martin, não tão comum em sua passagem pela banda. Esta canção foi lançada como um single, mas não vingou (o que é uma pena, pois tinha tudo para dar certo). O fim abrupto da canção é imediatamente emendado pela rápida faixa-título, um Hard Rock direto, com apenas um minuto e meio de duração. Esta canção é certamente uma das melhores e mais famosas desta primeira fase da banda.

Um grande destaque neste álbum é Chinese Arithmetic, um Heavy Metal com pitadas de Rap e um discreto e climático teclado fazendo cama para os riffs inspirados de Martin, sempre roubando a canção quando aparecem. Minha preferida deste álbum. Death March começa com um Mosley indignado e mantém um clima tenso e pesado durante todo o tempo. Apesar de soar repetitiva, é uma faixa interessante. A regravação da faixa-título do álbum de estréia do Faith No More aparece em seguida, sendo quase idêntica a original, com algumas modificações na letra. Acredito que a banda regravou a canção por vontade da gravadora, que sabia que se tratava de um hit em potencial e bastava apenas uma melhor produção e divulgação.

RN’R mantém o bom nível do álbum, mesclando Heavy Metal e Funk com precisão. The Crab Song é a mais longa e bela composição aqui. O início se dá com Mosley se arrependendo das barbaridades que proferiu a uma mulher, implorando para que ela volte. Embora não seja um dos melhores vocalistas, ele até se esforça para conseguir cantar no tom correto na primeira parte da canção (a rouquidão chega a me lembrar do Seal), que se converte em uma porrada musical em sua segunda metade, também contando com versos recitados ao melhor estilo Rap, tão comum para Mosley. Blood é mais um bom Heavy com ótimas guitarras, mas é com Spirit que Introduce Yourself termina em real agressividade. Eu gosto de pensar nesta faixa como uma despedida de Mosley (embora esta realmente não tenha sido a intenção da banda ou do vocalista), que foi substituído por Mike Patton um ano depois.

terça-feira, 24 de julho de 2012

I Hate No More: Parte I

Já imagino o que irão pensar aqueles que leram minha crônica sobre o SWU 2011. Afinal, não é novidade que, naquela época, eu não conhecia o trabalho do Faith No More (apenas sua versão para Easy e alguns trechos do DVD Who Cares A Lot?, exibido no micro-ônibus durante a viagem de ida para o festival), portanto ouvir aquelas músicas esquisitas e desconhecidas ao vivo, estando exausto e sob a fria chuva da madrugada não foram uma boa experiência e apenas aumentaram minha antipatia para com o som da banda.

Entretanto, fiz questão de deixar uma coisa bem clara: Mike Patton é o cara, um dos melhores vocalistas de todos os tempos, e vê-lo mostrar seu talento e fazer suas barbaridades e palhaçadas no palco não tem preço. No semestre passado – o último da faculdade – rolou constantemente a piada das “duas palavras”, em especial com o Nicolas, um dos ex-colegas com quem eu mais me identificava.

Antes do SWU e, sobretudo, após ele e durante o começo de 2012, o Bruno sempre me dizia o quanto ele gostava da banda e o quanto o som era bom, ao menos aquele dos primeiros álbuns. Em minha visita a Montes Claros no final de Janeiro, o Hernanny também me disse que Faith No More era muito bom – o que é bastante suspeito, pois ele ama bandas New Metal, logo é difícil levá-lo a sério. Porém, o que mais me intrigou foi o fato de que João Paulo, marido de Priscila, mesmo afirmando detestar New Metal, declarou-se grande admirador do FNM.

Logo pensei que, de fato, poderia valer à pena dar uma chance à banda. Ao voltar para casa, peguei a discografia e perguntei ao Bruno qual álbum eu deveria escutar primeiro – aquele que não me faria querer desistir após duas ou três músicas. Segui sua recomendação e, alguns meses depois, eu já havia me tornado admirador da banda também. É algo curioso e real. Em um dia, detestamos algo (ou alguém). No outro, não. E vice-versa.

A origem do Faith No More foi o Faith No Man, fundado em San Francisco em 1981 pelo baixista Billy Gould, baterista Mike Bordin, tecladista Wade Worthington e vocalista/guitarrista Mike Morris. Esta banda lançou apenas um single em 1982 chamado Quiet In Heaven/Song Of Liberty. Worthington foi substituído por Roddy Bottum pouco depois. Ainda no mesmo ano, Gould, Bordin e Bottum deixaram o Faith No Man e fundaram o Faith No More. Em 1983, após diversas mudanças, Chuck Mosley assumiu o microfone (que chegou a pertencer a Courtney Love por um curto período de tempo) e Jim Martin tornou-se o guitarrista. Os três fundadores são os únicos membros da história do Faith No More a participar em todos os lançamentos da banda. Nas postagens seguintes comentarei sobre os oito principais, desde o primeiro álbum até a primeira coletânea, que marcou o fim da banda em 1998.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Fins & Inícios

A faculdade acabou. Foram apenas dois anos, mas pareceram bem mais. Lá dentro, não aprendi muita coisa e não engrandeci como ser humano. Aprendi que, na faculdade, pouco se aprende e quase nada se aproveita. Se você quer ser bom em algo, deve buscar o conhecimento por conta própria. Talvez, ter conhecido pessoas novas seja a única coisa boa que carregarei comigo dos tempos universitários.

Minha paixão pelo Cinema não foi afetada, mas minha motivação a fazer filmes diminuiu drasticamente. Antes, bastava pensar um pouco para ter boas idéias. Hoje, luto para ter ao menos um sopro, um ponto de partida. O estado de espírito nunca significou tanto para mim, pois, embora eu esteja muito bem pessoalmente, não sei mais o que esperar de uma carreira profissional, ao menos por enquanto. Até encontrar meu caminho, seguirei lecionando, pois, além de ser meu trabalho atual, é algo do qual gosto de fazer.

Falando em vida pessoal, há (muitos) anos não me sinto tão bem. Após o Carnaval, conheci uma garota que mexeu bastante comigo. Baixinha, de corpo e rosto belos, lindo sorriso, apreciadora de Rock N’ Roll e Cinema (também livros, jogos e seriados) e, por último, mas não menos importante, deliciosamente inteligente e madura, ainda que com apenas 20 anos de idade. Seu nome é Ana Kíssila, mas amo chamá-la de Kiss – embora eu não goste da banda homônima, adoro beijos, sobretudo os franceses.

Apesar de começarmos a sair juntos em Março, foi apenas no dia de meu aniversário, há exatamente um mês, que decidimos oficializar nosso namoro, quando percebemos que certos problemas estavam finalmente chegando ao fim e que estávamos tão bem juntos que tínhamos a certeza de que era isso o que queríamos. Há tempos eu não me sentia tão feliz com alguma decisão. Ela só tem a adicionar em minha vida, me trazer felicidade e fazer com que me apaixone mais e mais a cada dia. Espero poder fazer o mesmo por ela.


Planos para o segundo semestre agora que minha carga horária de trabalho diminuiu e a faculdade acabou? Sim, mas gosto de dar um passo de cada vez. O primeiro deles, indubitavelmente, será rever minha filha (a grande razão de minha existência) e tirar uma semana de folga no trabalho apenas para me dedicar totalmente a ela. Afinal, eu mereço.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mais Um

Aqui estou eu, mais uma vez, para anunciar meu aniversário. Não tenho muito a dizer além de algumas palavras. Gostaria de agradecer novamente à Vicky, minha família, meus amigos e, por fim, a uma pequena grande mulher que entrou em minha vida recentemente e que fez com que eu me apaixonasse por ela. Quem convive comigo já a conhece. Quem não convive a conhecerá em breve.

Tive mais um ótimo ano e estou passando por um grande momento de mudanças. A faculdade está acabando e eu estou deixando a coordenação da escola onde trabalho para poder me dedicar a outras atividades e focar no que faço melhor, que é lecionar. Minha vida pessoal também está sofrendo mutações. Tudo está ficando diferente, para melhor. E melhor ainda ficará.

Nunca me senti tão bem. Devo isso a vocês.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Roger Hodgson

Se há alguém neste mundo a quem posso atribuir meu gosto musical, este é meu pai. Desde meu nascimento, há quase 26 anos, fui educado com boa música, desde a MPB até o grandioso Rock N’ Roll. As bandas do estilo que mais marcaram minha infância foram os Beatles, Pink Floyd, The Mission UK e Supertramp. Amo-as ainda mais hoje, que sou um adulto e entendo que a Música não é apenas uma diversão, como era em meus primeiros anos. Ela é, acima de tudo, capaz de transformar a vida das pessoas – emocioná-las, fazê-las serem melhores, amar a si mesmas e ao próximo.

E, obviamente, há a nostalgia, a boa e velha coadjuvante na trajetória de qualquer um. Nos tempos de Manaus (e posteriormente Goiânia), meu pai e eu costumávamos passar horas nos fins-de-semana escutando os vinis e cassetes que tínhamos em nosso sofisticado aparelho Sanyo. Dançávamos e andávamos pelo apartamento seguindo o ritmo das músicas. Os anos foram se passando e eu acabei me esquecendo destas sessões musicais e deixei de escutar algumas destas bandas durante parte da adolescência, em que me fixei em um som mais pesado.

Felizmente, meu pai jamais perdeu contato com elas. Em 2007, eu já havia recuperado meu amor pelos Beatles e Pink Floyd. Devido à falta de material suficiente do Supertramp (tínhamos apenas a coletânea The Autobiography Of Supertramp – 1986), apenas voltei a me interessar pela banda quando, certo dia, meu pai chegou em casa com uma cópia de Even In The Quietest Moments... (1977). Ele dirigiu-se imediatamente ao home theater e colocou o disco para tocar. Logo reconheci todas as músicas daquele álbum, ainda que apenas duas delas estivessem na coletânea – meu pai tinha aquele registro em cassete. Ao ouvir Lover Boy, Downstream, Babaji e Fool’s Overture após quase 15 anos, senti um grande orgasmo musical. Me apaixonei absurdamente pelo Supertramp e busquei conhecer mais de sua discografia. A consolidação pelo meu amor à banda deu-se ao ouvir (e relembrar) School, faixa de abertura do clássico absoluto do Rock Crime Of The Century (1974) e que traz um maravilhoso solo de piano.

O Supertramp foi formado pelos compositores Rick Davies (piano, teclado e vocais) e Roger Hodgson (piano, teclado, violão, guitarra e vocais) em 1969. Após diversas trocas de músicos em seus dois primeiros álbuns – os injustiçados e ignorados Supertramp (1970) e Indelibly Stamped (1971) – Davies e Hodgson conseguem estabilizar a banda com a contratação de Bob Siebenberg (bateria), Dougie Thomson (baixo) e John Helliwell (saxofone). Esta formação acabaria por se tornar a mais famosa da história do grupo, lançando cinco álbuns maravilhosos que se tornaram trilha sonora da vida de muitas pessoas na época.

Após o sétimo álbum – “...Famous Last Words...” (1982) – e sua subseqüente turnê, Roger Hodgson deixou a banda alegando que não havia mais condições de Davies e ele conciliarem suas composições (mesmo que fossem assinadas como Davies/Hodgson, quase todas foram compostas individualmente e cada um era responsável pelos vocais principais de suas próprias canções – assim como ocorria nos Beatles). O músico seguiu carreira-solo enquanto o Supertramp deu prosseguimento com as composições de Rick Davies, lançando outros quatro álbuns de estúdio.

Apesar do estilo de composição de Davies ser bem diferente daquele de Hodgson, é evidente que ouvir às canções de cada um intercalando-se tanto nos álbuns quanto nos shows era e ainda é uma experiência deveras prazerosa. A voz grave de Davies contrastava perfeitamente com a aguda de Hodgson. Os dois músicos se completavam, mas obviamente a figura mais marcante na banda era a de Roger Hodgson, responsável pela maioria dos hits da carreira do Supertramp. Ambos concordaram de que um não tocaria composições do outro em seus shows, mas, após a turnê de Brother Where You Bound (1985), Davies, tendo que carregar o nome da banda nas costas, se viu obrigado a incluir algumas canções de Hodgson nos shows, pois apenas as suas não eram suficientes para o grande público. Hodgson, em carreira-solo, jamais precisou depender de alguma composição de Davies em suas apresentações para cativar a platéia.

No ano passado, meu pai comprou o DVD de Roger Hodgson Take The Long Way Home, lançado em 2006 e que contém uma apresentação deste em Montreal acompanhado apenas do músico de apoio Aaron MacDonnald. Fica claro neste registro que Hodgson sozinho é capaz de fazer um show memorável e emocionante apenas utilizando o talento de suas mãos e sua voz. As músicas, executadas apenas por piano, teclado ou violão (e ocasionalmente saxofone), não perderam o brilho devido à ausência de acompanhamento de baixo e bateria. É óbvio que meu pai, Jack (minha “boadrasta”) e eu assistimos este DVD à exaustão.

Em Fevereiro passado, li uma notícia que quase me fez cair da cadeira: Roger Hodgson se apresentaria no dia 28 de Abril no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. OK, ele se apresentou em Brasília em 2008, mas eu estava perdido nos confins de Montes Claros na época. Agora eu teria a chance de curtir as canções que marcaram minha infância executadas ao vivo por seu criador. Imediatamente fui à casa de meu pai para lhe contar a notícia e, um tempo depois, nossos ingressos estavam em mãos. Jack iria conosco, mas, devido ao fato de o show ter sido adiado para o dia seguinte, ela teve que desistir da idéia, pois iria viajar na ocasião. Sabe-se lá por qual motivo, minha mãe, outra admiradora do Supertramp, também resolveu que não iria ao show. Ambas perderam. Que pena.

No dia do show, meu pai e eu passamos a tarde inteira assistindo ao DVD de Hodgson e ao último show do Supertramp com ele, realizado em Julho de 1983 na Alemanha. Fiz uma pesquisa para saber se o show seria nos moldes do DVD ou se haveria uma banda completa e meu pai e eu ficamos ainda mais empolgados ao saber que haveria cinco músicos presentes no palco, pois isso aumentaria as chances de ouvirmos certas canções mais musicalmente complexas que soariam no mínimo estranhas sem uma banda de apoio. No início da noite, nos arrumamos e nos dirigimos ao local do show, chegando cerca de uma hora antes de seu início. O local estava dominado por coroas, embora houvesse muitos jovens também. Aquele não era um show tradicional de Rock, pois todos assistiriam sentados em suas poltronas enumeradas.

Roger Hodgson e sua banda subiram ao palco às 20:45 e iniciaram a apresentação com Take The Long Way Home, um dos inúmeros hits de Breakfast In America (1979), o trabalho mais conhecido do Supertramp. Se a emoção já era grande o suficiente ao ouvir os primeiros acordes da canção, ela inchou ainda mais quando a voz marcante de Hodgson se fez presente nos primeiros versos. Eu simplesmente me senti muito feliz em estar ali testemunhando a apresentação de uma lenda do Rock cujo trabalho certamente marcou a vida de todos ali presentes.

Hodgson se comunicou com a platéia em todos os intervalos entre canções. Sempre carismático e sorridente, brincou diversas vezes e falou um pouco sobre as composições antes de executá-las. Após a primeira canção, nos desejou uma boa noite, disse o quanto estava feliz de estar de volta à Brasília após quatro anos e convidou todos a participarem ativamente do show durante suas duas horas de duração. Quando ele anunciou que a próxima música seria School, senti aquele velho arrepio na espinha – apenas um dos vários da noite. Esta é uma de minhas preferidas do Supertramp e, obviamente, também uma das quais eu mais aguardava.

A apresentação, dividida em duas partes de uma hora de duração cada, teve um intervalo de vinte minutos. Não me lembro da ordem exata de execução das canções do set list, mas lembro-me que a primeira parte foi encerrada com a celebradíssima The Logical Song e a segunda foi iniciada com Child Of Vision, ambas canções de Breakfast In America – todas as composições de Hodgson deste álbum se fizeram presentes, incluindo ainda Oh Lord Is It Mine e a famosa faixa-título. Outro álbum a ter todas as suas composições executadas foi Crime Of The Century, com If Everyone Was Listening, a também celebrada Dreamer (que fez com que todos no recinto se levantassem e batessem palmas) e a maravilhosa Hide In Your Shell – a canção preferida de minha mãe e que, segundo ela, também marcou um momento em sua vida.

Do álbum Crisis? What Crisis? (1975) – o único da formação clássica do Supertramp que tínhamos em vinil – só consigo lembrar-me de A Soapbox Opera. Inexplicavelmente as fantásticas Sister Moonshine e Two Of Us ficaram de fora do set list. Algumas músicas da carreira-solo de Hodgson foram executadas. Como não domino esta parte de sua carreira, não sei o nome de muitas delas, mas In Jeopardy, Lovers In The Wind e Death And A Zoo (esta última, uma prova definitiva de que não há nada mais pesado e lindo do que uma bateria microfonada) comprovam que, embora não seja tão marcante, esta fase possui músicas muito boas.

Voltando ao que realmente interessa – as composições da época do Supertramp –, do ótimo e nostálgico “...Famous Last Words...” foram executadas as belíssimas C’est Le Bon e Don’t Leave Me Now. Próximo ao fim do show, Hodgson apresenta a banda e anuncia a suposta última música do set list: o épico Fool’s Overture, a obra-prima do Supertramp de quase onze minutos de duração e maravilhosas passagens instrumentais, perfeitamente executadas por apenas cinco músicos no palco. Logo no início da canção, meu pai me chamou para ir para frente do palco, onde havia um bom número de pessoas. A princípio recusei, mas acabamos indo. Foi uma ótima idéia. Podemos observar de perto o genial compositor executando sua obra máxima. Indiscutivelmente, o ponto alto do show. Fool’s Overture sozinha já valeu o investimento.

Após alguns minutos, os músicos retornam ao palco para executar outra canção de Even In The Quietest Moments...: Give A Little Bit, outro enorme hit da eterna ex-banda de Hodgson. A essa altura, já não havia mais ninguém sentado no recinto. O encerramento apoteótico ocorreu com It’s Raining Again (de “...Famous Last Words...”). Era impressionante o número de pessoas ao redor com sorrisos gigantes estampados em seus rostos. É o poder da Música. É o poder de um grande show com grandes composições. É o fim de uma longa espera para muitas pessoas. Roger Hodgson agradeceu novamente a participação do público e prometeu retornar à Brasília futuramente.

A vida nos dá estes momentos. Em Manaus, meu pai e eu nos divertíamos com estas músicas. Mais de 20 anos depois, estávamos juntos novamente celebrando-as com seu criador e com outras pessoas que as valorizam tanto quanto nós. Aquele foi um momento de alegria, merecido e conquistado. Se senti falta de canções como Crime Of The Century, Ain’t Nobody But Me, From Now On, Goodbye Stranger e My Kind Of Lady (todas compostas por Rick Davies)? Claro que sim. Supertramp é Supertramp. É, acima de tudo, música de qualidade incontestável, feita por dois grandes compositores. Dois. Mas apenas um deles estava presente naquela noite mágica, arrepiante e inesquecível, e ele entregou tudo o que prometeu, e foi além. Nós, meros mortais, somos eternamente gratos.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Blah Blah Blah

Se há um lado positivo em ficar tanto tempo afastado deste blog é que, normalmente, sempre há novidades quando retorno. Neste caso, não apenas isso como também a correria, pois Abril é mês de provas e entrega de trabalhos na faculdade. Estou contando as semanas para acabar com este processo doloroso, cansativo e nada produtivo. Algumas poucas amizades talvez sejam a única coisa boa que carregarei daquele lugar.

Em 12 de Março iniciei um clareamento nos dentes, o que me impediu de fumar e – ainda mais desesperador – me fez interromper o consumo de Coca (a bebida). Acontece que sou um louco apaixonado por este líquido (fato extremamente óbvio para quem me conhece, além de motivo para diversas piadas) e passei por maus bocados após ter cessado abruptamente meus dois grandes vícios, embora com o cigarro tenha sido bem mais tranqüilo. Agora que o tratamento chegou ao fim, voltei a beber minha Coca gelada. O tabaco ficou para trás.

É impressionante a diferença que ficar sem fumar por poucos dias já proporciona. Mesmo sem exercícios físicos, minha capacidade respiratória melhorou muito – pude ir percebendo isso durante as caminhadas até o metrô e durante os ensaios, onde meu fôlego está me permitindo cantar bem melhor do que eu jamais havia feito. O fato de eu não ter mais que me preocupar se meu cheiro nicotinoso incomoda alguém também faz toda a diferença.

Finalmente comprei uma câmera digital. Não é grande coisa, mas ela filma em Full HD e é perfeita para fazer filmes experimentais. Há tempos não faço um bom filme, daqueles que me fazem sentir satisfeito e orgulhoso de mim mesmo. Porém, com o término da faculdade, creio que terei muito mais disposição tanto para escrever para este blog quanto para novos roteiros. Tenho algumas idéias, mas nenhuma paciência para colocá-las num papel (ou tela de computador).

Na Páscoa, voltei a Montes Claros novamente após apenas dois meses. Desta vez, passei mais tempo com pessoas diferentes daquelas que encontrei em minha última passagem pela cidade, e isso foi muito bom. Por mais que pudesse ser ótimo juntar todas as pessoas bacanas em um só lugar, sei que isso não é possível, afinal muitos viajaram durante o feriado. Mas minha filha estava lá e, para mim, é o que mais importa.

Não encontrar e nem dar sinal de vida para certo alguém também me fez muito bem. Espero que dessa vez ela perceba que não só a sua vida tem o direito de seguir em frente, como a minha também. Não a procurei porque realmente não fiz questão disso e quero, enfim, poder encerrar este capítulo em minha vida. Se feri seu ego, não lamento, apenas espero que compreenda eventualmente e cesse a hostilidade.

Um dos principais motivos desta viagem ter sido muito boa foi ter reencontrado Michele, colega de sala na Escola Normal que se tornou rapidamente uma amiga. Intrigas estúpidas da adolescência fizeram com que nos afastássemos por muitos anos. Relembramos momentos daquela época, pequenos detalhes curiosos – sequer me lembrava de muitos deles – e escutamos boas músicas com amigos também daqueles tempos, sendo alguns outros de épocas posteriores. Encontrá-la foi diferente de encontrar outras pessoas, pois ela, assim como eu, não pertence mais àquela cidade, e ainda assim foi lá onde nos reencontramos. Poucas pessoas têm o dom de fazer com que eu me sinta ótimo apenas por conversarem comigo e Michele é uma delas. Outra grande amiga que espero carregar por muito tempo de agora em diante.

Até o término das aulas – que deve ocorrer na metade de Junho – continuarei a fazer atualizações esporádicas. A faculdade roubou toda a minha vontade de escrever, mas sigo com minha política de atualizar o blog ao menos uma vez por mês.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Por Demônios Seja Guiado

Quando eu era mais jovem, gostava muito de fazer um som com os amigos. Devido à falta de talento, minha única opção era o vocal, pois nunca me dei bem com outros instrumentos. Em 2004, eu fazia parte de uma banda cover de Megadeth com alguns amigos e fiz apenas um show com eles, em Agosto. Embora a apresentação tenha sido boa, aquela seria a última vez em que eu subiria a um palco em muitos anos.

Eu gostava daquela banda. Saí da mesma por motivos bobos. Uriel e eu não estávamos nos dando muito bem por falta de maturidade de ambos na época, enquanto que Hermes não parecia mais tão interessado em prosseguir. Os únicos com os quais eu não tinha problemas eram Bruno e Maikleidson. Os anos foram se passando e Uriel e eu voltamos a conversar numa boa. Hermes sofreu um acidente fatal de carro em 2006.

Recentemente, pouco antes de minha viagem a Montes Claros, Bruno me convidou a fazer uma participação especial em um show do cover de Sepultura/Pantera do qual ele faz parte como guitarrista – assim como Uriel, no baixo. Eu achei que seria uma boa e aceitei o convite, escolhendo Strength Beyond Strength (Pantera – Far Beyond Driven, 1994) como sendo a música da qual eu gostaria de cantar. Como o show estava marcado para acontecer no Carnaval, fiz minha viagem a Montes Claros, regressei e aprendi a letra da música rapidamente. Estava tudo certo.

A banda faria dois shows em dias seguidos. O primeiro deles seria no Blues Pub, um bar em Taguatinga, no Sábado (18). Naquele dia, às nove da manhã, Bruno me liga pedindo para eu ir ao ensaio para quebrar um galho, pois Daniel, o vocalista, não poderia comparecer. Me arrumei rapidamente e fui para o estúdio. Mesmo morando mais longe do que os outros, fui o primeiro a chegar. O ensaio não foi bom para mim, pois fazia tempo em que não escutava algumas das músicas, o que me fez esquecer certas passagens. Mas, ao menos, eu sabia que aquilo era apenas um ensaio e que Daniel estaria presente à noite.

Após dormir quase o dia inteiro por ter saído com o Hernanny (que veio passar uns dias em Brasília) na noite anterior, chegado tarde em casa e não ter dormido muito antes do ensaio, me arrumei para ir ao show. Fui buscar Lande (namorada do Bruno) e nossa amiga Milly na casa deles e, ao sair de lá, Bruno me ligou do local do show avisando que Daniel não iria aparecer e que eu teria que cantar o show inteiro. Naturalmente, me senti bastante tenso, pois os caras eram meus companheiros de longa data e eu simplesmente não poderia dizer “não!”, mesmo sabendo que corria o risco de passar vergonha por não saber as letras de nove em dez músicas completamente.

Ao nos encontrarmos ao lado de fora do bar, entrei no carro do Bruno para poder ouvir melhor as músicas do set list e prestar atenção nas passagens e entradas dos vocais. Quanto às letras, não havia nada a ser feito, pois seria impossível decorar tudo em tão pouco tempo, especialmente porque faríamos a primeira apresentação da noite. Logo, não me foquei tanto nessa parte. Depois, levamos todo o equipamento para dentro do local. Marcelo havia trazido sua bateria inteira, que levou certo tempo para ser montada, atrasando ainda mais os eventos estabelecidos.

O “palco” era apenas uma plataforma de madeira de aproximadamente dez centímetros de altura. Isto não seria um problema, caso parte do piso não estivesse afundada, impossibilitando que eu me movimentasse bastante sem correr o risco de cair. A solução foi não sair do lugar durante todo o show. De acordo com o Hernanny, minha voz estava audível, mas não tão alta, o que achei ótimo, pois assim disfarçaria o “embromation” que, para um professor de língua inglesa, é vergonhoso e inaceitável (mas eu não tinha escolha).

O lugar não estava muito cheio, mas do ponto de vista do palco parecia estar tudo certo. Tive a impressão de que estávamos fazendo um bom show e que os poucos perto de nós estavam se divertindo. Ao perceber isso, me senti bem mais à vontade e passei a gostar de estar em um palco novamente, ainda mais com dois dos caras presentes na última vez, tantos anos atrás. Boas lembranças emergiram naquele momento.

O término da apresentação foi um alívio. Apenas pelo fato de eu não ter sido vaiado já foi uma vitória (assim como quando O Troco do Fiado foi exibido no Festival de Brasília). Até ouvi alguns elogios, o que eu não esperava, dada a minha falta de preparo na voz e nas letras e inexperiência no palco.

O show do dia seguinte foi no Carnarock, festival anual de Brasília que teve sua edição de 2012 no Cruzeiro. Dessa vez, Daniel estava disponível para se apresentar, o que me permitiu curtir o show apenas como espectador e fazer minha participação especial, tudo o que também deveria ter ocorrido na noite anterior. O local da apresentação estava bem cheio e havia muita gente em frente ao palco (inclusive eu) agitando bastante durante as músicas. Perto do fim, o próprio Daniel me convidou a juntar-me à banda para interpretar uma música em seu lugar.

O show estava tão bom que eu subi ao palco com o jogo ganho. Àquela altura, qualquer música seria bem-vinda, mas Strength Beyond Strength, com suas diversas variações de andamento, arrancou diversas respostas (positivas) da galera. Para mim, foi um momento mágico que ainda me causa arrepios, uma aventura breve, porém intensa, como há tempos eu não tinha. Não me lembrava mais de quão boa é esta sensação de estar em frente a várias pessoas se divertindo e deixar de lado, ainda que por alguns instantes, minha timidez (que, felizmente, está bem mais controlada e contida do que antigamente).

Não há nenhum vídeo desta participação especial, que mesmo sozinha valeu bem mais do que um show inteiro na noite anterior. O local era melhor, o público era maior e mais empolgado e o som estava perfeito, como eu nunca havia escutado antes em um show underground. Apesar da falta de lembranças físicas, este se tornou mais um daqueles seletos momentos que guardarei comigo por muito tempo, ou, quem sabe, pelo resto da vida.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Montes Claros

Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com Montes Claros. Quando criança, eu adorava visitar a cidade e esperava por cada final de semestre ou ano para poder encontrar e brincar com meus primos. Tudo era muito bom naquela época, pois crianças não carregam as preocupações e responsabilidades de um adulto.

Sim, um adulto. Pois, aos 17 anos (ainda longe de responsabilidades), tive a primeira oportunidade de me mudar para aquele lugar. Através de Felipe (vulgo Neo, devido ao seu momento careca que evidenciava um buraco atrás de sua cabeça), apresentado a mim por meu primo Farley, conheci muitas pessoas e, através destas, conheci muitas outras mais, em um curto espaço de tempo.

Eu havia me mudado para lá porque recebi uma proposta de trabalho que não se concretizou. Portanto, passava todo o meu tempo na rua com meus “recém-conhecidos”. Nesta época, conheci a Aninha e ficamos juntos por sete anos. Durante este tempo, fui embora de Montes Claros algumas vezes. Minha última tentativa de morar lá ocorreu no segundo semestre de 2008, e não durou mais do que isso.

Entre idas e vindas, fui gradualmente percebendo que aquela cidade não me agradava por diversos motivos. Alguns deles eram ausência de privacidade, falsidade e inveja. Éramos um dos casais mais conhecidos por todos naquela época (na verdade, apesar das atuais circunstâncias, ainda somos) e havia muita gente querendo estar no meu lugar ou no dela, ou simplesmente não queria que estivéssemos juntos. Acabamos sobrevivendo a isso, pelo menos.

Outro motivo era a falta de oportunidades profissionais. Só havia trabalhos fracos e mal-remunerados. Não priorizavam as pessoas que realmente sabiam das coisas e como fazê-las, e sim aquelas munidas de “Q.I.”. Eu já estava achando tudo aquilo patético.

Mas Victoria foi gerada e nascida naquele lugar. Ela foi e é a melhor coisa que já aconteceu em toda a minha vida. Além da Aninha (quem me deu este inestimável presente), adquiri alguns bons amigos cuja amizade segue forte até hoje. Outros se perderam com o tempo por vício em drogas pesadas ou até mesmo foram mortos de forma inesperada. Após o início de 2010, eu ficaria dois longos anos sem pisar naquela cidade da qual jurei a mim mesmo que jamais voltaria a morar.

Nestes dois anos, voltei para Brasília, iniciei minha faculdade, meu relacionamento se encerrou e arrumei um trabalho do qual gosto muito. Eu não pensava em ir a Montes Claros tão cedo, pois tinha muito receio de acabar vendo algo que certamente poderia me deixar pior do que já estava. Minha filha me visitava esporadicamente, então eu estava tranqüilo sabendo que não precisaria ir lá para vê-la.

Até que, nestas últimas férias, não foi possível a sua vinda para Brasília, pois não havia quem pudesse ficar com ela enquanto eu trabalhava. Percebi que a única forma de ver minha filha seria ir a Montes Claros. Eu já estava bem o suficiente para isso. Pedi uma semana de folga no meu trabalho e avisei aos amigos mais próximos de que minha chegada era iminente e ocorreria no último dia 29.

Foi muito estranho estar de volta àquele lugar. Dois anos se passam muito rápido, mas muita coisa muda. Quanto à minha filha, jamais fico decepcionado. Cada vez que nos encontramos é uma sintonia diferente, mas igualmente perfeita. Cada momento com ela é precioso, desde um simples passeio no shopping, uma ida ao cinema ou até mesmo uma volta pelo quarteirão. Quando nos despedimos, percebi nela a tristeza ao me ver partir mais uma vez, o mesmo olhar que sua mãe transmitia tempos atrás.

Se as pessoas mudam, as amizades permanecem inalteradas. Antes da minha chegada, perguntei ao meu amigo Hernanny se poderia ficar em sua casa, o que foi imediatamente aceito. Quando fomos jogar sinuca juntos pela primeira vez após anos, nos divertimos relembrando frases que proferíamos durante as partidas, além de cantar Easy, bastante conhecida na versão do Faith No More, em alto e bom som, exagerando um pouco e não ligando para quem pudesse achar ruim. Grande companheiro de todas as horas.

Reencontrar Tayná, minha amiga mais antiga em Montes Claros, foi um dos melhores momentos da semana. Há cerca de quatro anos planejávamos nos encontrar para tomar uma Coca, fumar uns cigarros e conversar sobre putaria da forma como fazemos tão bem. Finalmente conseguimos transformar a vontade em realidade e acho que, apesar de também termos conversado sobre coisas mais sérias, há tempos eu não ria tanto. Não sei como um ano atrás eu havia me afastado dela apenas por estar irritado comigo mesmo e com outras pessoas dentre as quais ela não estava incluída.

Felipe era a única pessoa das quais não fazia tanto tempo que eu havia visto pela última vez, já que seu irmão Alceu mora em Brasília e ele costuma visitá-lo aqui ao menos uma vez por semestre, sempre me avisando com antecedência para que possamos marcar de sair. Eu o reencontrei na casa de João e Priscila (prima de Felipe), companheiros de Rock N’ Roll assim como nós. Priscila tem o dom de me fazer sentir em casa, sempre colocando para tocar o que gosto de ouvir, pois gostamos de várias bandas em comum. Alice In Chains é sempre presença certa. Na minha última noite na cidade, também me encontrei com Elton e Amom, outros dois companheiros daqueles áureos tempos de Avenida/Praça da Matriz/Shopping Popular.

É difícil conseguir medir as palavras para poder falar sobre Aninha. A última vez que ficamos juntos foi no início de 2011 e, mesmo que não estivéssemos mais namorando naquela época, a química foi intensa. Passado um ano sem vê-la, eu acreditei que estava pronto para seguir em frente. Na prática, foi muito diferente. Ela continua me enlouquecendo com sua beleza e encanto. Infelizmente, por mais que ainda exista amor mútuo (isso é óbvio para todos, como pude constatar), não depende de mim ficarmos juntos novamente. Basta que ela o queira e faça possível.

Voltar para Brasília após rever tantos bons e velhos amigos só fez aumentar a nostalgia habitual dos tempos em que eu realmente sabia o que era diversão. Estar com a Vicky traz luz à minha vida. Pela primeira vez em muito tempo, deixei Montes Claros sem realmente querer, mas isto não significa que eu voltaria a morar lá algum dia. Apenas fui embora com um aperto no coração e muita confusão em meus pensamentos.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Finale

Acordado, sou apenas metade de mim mesmo
Apenas em sonhos me sinto completo
Pois neles sou livre para visitá-la constantemente
Ir a lugares jamais explorados

Precisar de você não a trará de volta
Mas carrego-a comigo em memórias
Elas tornam minha vida menos insuportável

Não sei a quem você engana
Se a mim, a si mesma ou a todos

“Se possível, algum outro dia”
Talvez algum outro dia seja tarde demais

Então
Me abrace, me beije e me ame
Ainda que em pensamento
Antes que o mundo acabe.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sepultura: Kairos

Eu tive a oportunidade de assistir a um show do Sepultura no Porão do Rock de 2002, quando a banda estava divulgando o álbum Nation (2001). Infelizmente, como não conhecia as músicas, fui embora mais cedo. No ano seguinte, ao ouvir Chaos A.D. (1993), me arrependi bastante de não ter conferido aquele show e uma nova oportunidade só surgiu em 15 de Dezembro de 2006, quando tocaram em Dallas e eu tive o enorme prazer de conhecer e conversar com Derrick, Paulo e Andreas (este último após a apresentação).

Se foi com Dante XXI, álbum lançado naquele ano, que passei a prestar mais atenção e a apreciar a fase da banda com Derrick Green nos vocais, A-Lex (2009) foi o responsável pela consolidação da minha paixão pela banda, independentemente de quaisquer fases ou formações. Em 2010, o Sepultura anunciava que um novo álbum seria feito e que vídeos dos ensaios seriam disponibilizados pela Internet periodicamente. Posso afirmar que esta foi a única vez em minha vida que acompanhei o processo de composição e gravação de um álbum. A expectativa por um novo álbum de estúdio da minha banda de Metal preferida em todos os tempos era enorme.

Kairos, lançado em Junho de 2011, foi o 12º álbum de estúdio do Sepultura – o sexto com Derrick, igualando em números com Max Cavalera. A banda optou por um som mais direto e pesado e remete bastante à famosa “trinca clássica” Beneath The Remains (1989)/Arise (1991)/Chaos A.D., fazendo de Kairos, em minha opinião, o melhor trabalho do Sepultura desde aqueles tempos.

Spectrum, se não funciona tão bem como faixa de abertura – especialmente de um grande trabalho – tampouco decepciona por sua cadência constante e riff simplista. Aqui já se pode notar a presença dos solos mais elaborados de Andreas Kisser, ausentes durante muitos anos. Kairos, a faixa-título, segue cadenciada em sua maior parte. Porém, a segunda metade da música é extremamente empolgante, com um riff simples e matador (uma especialidade de Andreas). Perfeita para agitar nos shows. O andamento do álbum começa a acelerar com Relentless, apresentando um excelente trabalho de bateria de Jean Dolabella e solos guitarrísticos intercalando entre si. Segue-se 2011, a primeira de quatro vinhetas (extremamente desnecessárias, por sinal) de aproximadamente 30 segundos de duração.

Just One Fix é uma música da banda Ministry e não conheço sua versão original. Entretanto, se há algo inegável é que o Sepultura sempre mandou bem em covers, improváveis ou não. Esta em questão até soa Industrial, mas, felizmente, não lembra em nada a modernidade encontrada em Roots (1996). Aqui temos Metal direto e de qualidade. Dialog traz a cadência de volta juntamente a um dos melhores refrãos do álbum. Propositalmente ou não, seu final lembra muito o do épico Desperate Cry, clássico do álbum Arise e, talvez, minha canção preferida da carreira da banda. Mask já anuncia as guitarras desesperadas de Andreas pedindo espaço. O refrão contém blast beats, remetendo ao Black Metal. Cheia de passagens e ritmos quebrados, é uma das mais empolgantes de Kairos. 1433 é a segunda vinheta a ser apresentada.

Seethe é a canção mais curta do álbum. Uma pena, pois há tantas idéias boas encontradas nela que poderiam render facilmente uns dois minutos a mais sem soarem repetitivas. Ainda assim, outro destaque. Born Strong é minha música preferida de Kairos e traz um dos melhores riffs já criados pelo Sepultura em seu refrão. Esta poderia facilmente fazer parte do Arise caso houvesse sido escrita naquela época, tamanha é a similaridade de estilos. Embrace The Storm não traz nada de muito interessante, sendo assim a canção que menos gosto aqui. 5772, a terceira vinheta, passa quase despercebida quando logo se inicia a frenética No One Will Stand, a música mais Thrash Metal do álbum, onde toda a banda se sobressai, até mesmo Paulo Jr. que, como todos sabem, nunca foi um grande baixista. Mas realmente quem se destaca logo no início é Jean, demonstrando grande técnica em sua bateria. Grande homenagem ao Thrash old school.

Desde Against (1998), o primeiro álbum com Derrick, o Sepultura encerra seus trabalhos com excelentes canções instrumentais/semi-instrumentais – as exceções vão para Roorback (2003) e A-Lex, sendo este último devido à inclusão da dobradinha A-LEX IV/Paradox em seu encerramento. Em Kairos, a banda apresenta Structure Violence (Azzes), uma parceria com o grupo de percussão francês Les Tambours du Bronx. A faixa traz elementos eletrônicos, frases ditas em Inglês e Português e alguns momentos cantados por Derrick. O trabalho de percussão é fantástico, assim como os riffs de Andreas. O Sepultura criou aqui a melhor faixa de encerramento de sua carreira, superando até mesmo a excelente Clenched Fist, do Chaos A.D. 4648 é a vinheta que finaliza Kairos de vez. Nesta, podemos conferir vozes da banda – mais precisamente as de Derrick e Andreas – conversando.

A edição especial de Kairos ainda traz duas bonus tracks. A primeira é Firestarter, mais um cover, desta vez da banda The Prodigy. Também não conheço a versão original desta, mas a encontrada aqui é ótima e traz um experimentalismo interessante. A outra é a inédita Point Of No Return. Mesmo não sendo do calibre de outras como Relentless, Dialog, Mask ou Born Strong, não consigo encontrar motivos para que ela não fosse incluída como parte do álbum, pois sua qualidade é inegável, sendo até mesmo melhor do que algumas das canções “oficiais”. Esta edição especial também traz um DVD contendo os mesmos vídeos dos ensaios disponibilizados na Internet.

Kairos foi uma volta bem-sucedida ao Metal praticado outrora e trouxe mais um punhado de excelentes canções ao catálogo do Sepultura, mostrando uma banda super coesa e afiada. Infelizmente, em Novembro passado Jean anunciou seu desligamento da banda, sendo substituído por Eloy Casagrande, o moleque virtuoso das baquetas. Eu espero apenas que ele seja um substituto a altura de Jean, que, por sua vez, fez justiça ao trabalho do fantástico Igor Cavalera. O confortante é saber que o Sepultura sempre foi e ainda é maior do que qualquer integrante que faz ou fez parte da banda, e eu só tenho a agradecê-los por tornar minha vida ainda mais feliz com sua música original e de extrema qualidade.